Kerouac Vs Baker

Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um branquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste.

E depois de uma noite incrível de Jazz e whisky fui apresentado ao promissor Chet como um promissor escritor do leste. Estava de passagem pelos arredores de L.A., era uma segunda-feira fodida em que eu e o pessoal não tinha porra nenhuma para fazer e surgiu a idéia de visitar um bar que ficava nos arredores da cidade. Era um porão que abria as portas para o Jazz toda segunda. Acho que era nesse dia por que ninguém iria querer ver esse tipo de coisa acontecendo no fim de semana. Tinha uma galera bacana em Los Angeles que odiava qualquer coisa que vinha dos negros e esse pessoal não tolerava qualquer citação a eles. E nós como éramos loucos por tudo que saia da alma negra, íamos onde ela estivesse.

Pete me pegou pela gola e me levou para um canto onde um pessoal puxava um fumo. A princípio achei que essa era a nossa intenção, mas de repente percebi que ele queria me apresentar ao altão louro e banguela que falava sem parar de seus feitos.

– Hey Chet, esse é Jack, o cara que eu te falei!

– E ai? – Baker estendeu a bagana na minha direção e me ofereceu o baseado. É claro que aceitei na hora e antes de responder o seu cumprimento, mandei a fumaça para o mais profundo do meu corpo e ainda com ela estocado no meu peito respondi:

– Cara, você manda como os negões da costa leste. Tem um pessoal lá que não irá acreditar quando eu falar que vi alguém ao nível do Parker e do Davis.

Acho que ele não se sentiu muito à vontade com a comparação, pois praticamente ignorou o que eu disse e se virou para um outro cara que ali estava. Porém, antes de sair dali, ele me disse que depois queria continuar a nossa conversa. Eu apenas abanei a cabeça e passei o fumo para o próximo. Pete ficou meio envergonhado, mas eu logo acalmei a sua ansiedade e pedi para ele relaxar. Já estava acostumado com essas pretensas estrelas, eu mesmo era uma delas, afinal.

Acho que nunca mais a gente se falou direito, apenas na Europa em 61, mas passei a anunciá-lo por onde for que eu fosse. Acho que sentia uma energia estranha que rolava em mim e que não sei exatamente porque, via que tinha naquele cara. Penso que devia ser o caso de eu ver nele algo que eu nunca pude ser, um branco tocador de jazz.

Ao longo da década de 50, quando Chet chegava a NY, eu fazia questão de levar o pessoal para ouví-lo, mas o meu orgulho nunca me permitiu muita aproximação. Na verdade, tinha medo dele sair de fininho como da outra vez. Acho também que o filho da puta ficou ofendido de eu dizer que ele tocava como os negões. Um mané orgulhoso de uma figa que se achava um deus. E por que não? Talvez fosse mesmo, um daqueles sopros divinos que descem ao inferno para se deprimir e instigar aos simples mortais na mais pura arte das estrelas.

Quando eu já tinha me transformado em um escritor célebre, tive um encontro com o maldito na Europa. Naquela época acho que tanto eu quanto ele estávamos mais a fim de nos enlouquecer do que falar com as pessoas. Assim, numa festa de uma bicha italiana que vivia em Paris tivemos a honra de dividir a mesma agulha e ficarmos soltos por umas horas, investigando cada um a alma do outro. No início havia ainda uma moçada, mas de repente só sobrou o nosso papo alucinado, cada um falando arrastado e desorientado sobre si e também de como as pessoas e a imprensa nos deprimiam. Chegamos a conclusão que o melhor mesmo era entrar cada vez mais para dentro e esquecer que existe algo ai fora. Ficamos ainda mais deprimidos e percebemos que sim, havia algo entre a gente, mas era tão pesado que o melhor seria cada um esquecer o outro, como se esquece do que acontece num porre de vodka.

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