Kerouac Vs Foucault

Odeio quando as coisas não saem como planejadas. Essa frase insistia em me perturbar nas últimas duas semanas. Fico com uma espécie de dor de cabeça, quanto sinto que tudo vai dar muito errado. Eu tenho planos e cada passo é um passo calculado, hehehe. Deve ter muita gente fazendo “annn,  mas você não é o cara que sai por aí, à deriva? Que pula do vagão e não sabe o que irá encontrar na próxima esquina ou garrafa?” Sim, sou eu, mas controlo quase todos os meus passos mentalmente, até o caos pode ser mapeado. É só QUERER não ter um destino certo. É pensar racionalmente e esperar a aleatoriedade da vida bater a sua porta dizendo “olá”, pronto. O que desagrada a minha existência neste exato momento é a dúvida pela validade de uma ação. O que o homem faz que não é para o outro? (mesmo que sempre queira é ter un$ pra si). O pobre vaidoso se mata diariamente para mostrar ao mundo o seu valor, mas nem sempre os olhos alheios estão atentos ao que faz, somente ele mesmo presta atenção, como se fosse também o seu único público. E não era para ser assim? Uma ação deveria valer por ser executada, independente se anotada, filmada, gravada em rolos de fitas, mencionada em discursos, agradecimentos, livros de história, teatros de escola, contada em ações de graça, como exemplos na igreja, nas rodas sociais ou na de junkies. Ela é o que é e cada um a faz por que aquilo lhe parece correto de um modo, mesmo que o correto seja o errado. O maniqueísmo tem que cair. Enquanto o mundo continuar bipolarizado viver vai ser uma farsa.

Teve um tempo em que acreditava exclusivamente na força coletiva das coisas. Hoje, acho que todas são individuais e silenciosas, mesmo que provoquem muitíssimos resultados na coletividade. As experiências são parcerias do indivíduo com a realidade, um dos momentos em que ele não está só. Mas quando se escuta um jazz, sente-se a vibração dos acordes como se num delírio. Muitos caras não precisam de qualquer coisa para pirar no estremecer do espírito despertado pelo beebop. Apesar de muitos estarem ali assistindo e seus corpos até corresponderem a certos padrões de movimento, cada um, cada mente ou pedaço de individualidade vai estar atenta a sua própria experiência, única. A liberdade sempre foi discutida sobre estes termos: como acreditar que um ignorante tem individualidade? A prepotência sempre foi uma faca de dois gumes para nós, os racionais do ocidente. É claro que um completo inábil pode entrar no ritmo de uma big band e do nada, começar a tirar alguma coisa da bateria. Ainda assim, a soma de tudo é tremendamente íntima. As pessoas podem até sentir alguma coisa, ter leituras, sensações, agir no impulso e terem uma espécie de epifania coletiva, mas, sobretudo, por mais que a encenação pareça ser composta por padronizados, essa é a sensação que se tem do que é o outro, de como ele reage, absorve, discute. Talvez os que seguiam Hittler tinham lá suas razões um pouco sufocadas pela teatralização da vida, mas muitos entendiam e concordavam com o que estava sendo apontado. É claro, que uma grande minoria sabia o que realmente acontecia e entre ela mesma, outros grupos tinham lá seus segredos e propostas. E dentro de cada organização informal, uma porrada de gente diferente, mas todas parecidas, com a vida igual, alguns gestos idênticos, mas com tendências e determinações diversas. Somos levados na onda, mas ainda assim, somos frutos do mar. Para o amor e a sabedoria não é preciso ter razão científica, mas para se dedicar a ela, sim.

Bom, gastei tanto da sua atenção até aqui, mas de forma alguma quero deixar de comentar o que me deixa desgostoso. Entrei em passagens secretas, tanto da literatura, quanto do meu espírito que quase perdi o objetivo da frase inicial deste texto. A verdade é que há alguns meses as coisas já não estão mais as mesmas. Não consigo realmente me concentrar e sou movido pelo e em direção ao que me é extremamente necessário apenas. Queria muito poder ter inspirações diariamente ou pelo menos, força para dar força para as coisas que saem da minha mão. Fico ultramente cansado mentalmente confuso, como se fosse uma necessidade profissional e nada mais, como se eu tivesse perdido o tato da coisa, o sentimento, o espírito. Para um poeta, um bardo, isso é o desastre, não conseguir mais enxergar Avalon ou mesmo o maná que circula pelo mundo. Mas hoje, agora, vejo que o que mais me intriga já não é o que me deixou odioso. Já não me importo com o fato de ter passado duas horas fazendo uma anatomia seca do meu cérebro para escrever um texto que, quando saiu, doeu a cabeça, quando ficou pronto, eu escondi do meu ego, porém me senti reconfortado por ter completado aquilo – já que é um profissional da coisa e precisa escrever, mesmo estando completamente sem inspiração real – um blefe.

Estou em uma cidade no interior da França. Há uma incursão literária por localidades pequenas, aconchegantes e sempre, sempre com muita gente louca que toma todos os vinhos e trepa de várias maneiras novas que não tinha visto ainda na América. Mulheres magrinhas, com peitos interessantíssimos. Assim, passo estas últimas duas semanas sem sair muito da linha e sei que isso vai dar em algo de muito constrangedor, só espero o momento em que tudo se emergir, levando Sodoma e Gomorra para os infernos. Mas também, de vez em quando, a gente discute alguma coisa sobre livros, artes, cinema, existencialismo e filosofia oriental.

Tinha acordado às cinco da tarde com uma ressaca tremenda de cigarros e dor de cabeça patrocinada por Dionísio – uma safra especialíssima de 59 guardada a sete palmos da terra. Estava sozinho em um hotel e esperava o telefonema de meu agente literário na Europa – só ele tinha o endereço da próxima festa. Porém, uma parte do flashback da noite anterior me fez sentir uma angústia profunda. Não produzia nada havia muito tempo e no meio de todos aqueles escritores e filósofos, cineastas, artistas produzindo uma infinidade de coisas significantes e por que não, beats, eu ficava acuado, tímido, engolido, um garoto mimado, agarrado a uma garrafa de Jack Daniels como se fosse um ursinho e a um livro, sucesso de vendas com um monte de histórias do bom selvagem da América – me sinto um índio brasileiro na França de Luís XIV.

Então, escrevi, escrevi, fiquei puto, continuei a escrever, amassei, desamassei, passei a borracha, rasguei o papel, escrevi e depois de um tempo, acabei alguma coisa. Coloquei no bolso, pronto para mostrar para um dos diretores franceses de vanguarda que ficara admirado com O Livro e jurou retratá-lo um dia no cinema. Era um cara bacana e humilde, sabia falar com todos, mesmo que só estivesse em seu pensamento o tempo todo. Ele mesmo me inspirara a escrever, me incentivou a criar novamente pela intuição. Mesmo que eu não tenha realizado um texto 100% puro, pelo menos tinha alcançado algum resultado que não a desistência em minutos, como estava me acostumando.

Meu agente passou, fomos para a casa de um pessoal bastante liberal. Um dos que mais me impressionaram foi um sujeito alto, um tanto silencioso, mas ao mesmo tempo, arrogante. Usava óculos redondos de aro fino e raspava todo o cabelo. Um autêntico personagem daqueles magazines de ficção científica dos anos 50, um cientista clássico de Asimov. Conversou algumas palavras comigo, mas o suficiente para tentar me convencer de suas teorias conspiratórias. Curtia muito o lance de fazer uma arqueologia das coisas, das palavras, das culturas. Dizia-se um doutor na loucura e era extremamente apavorado com a medicina e o seu poder negativo sobre o homem. Percebi também sua inclinação para o narciso – talvez tenha sido um filósofo grego em outra encarnação! Fiquei meio ressabiado até por que ele realmente tinha um aspecto interessante, por isso, parei de dar muita atenção ao seu papo e fui procurar uma outra roda para poder guiar o assunto em meu francês-inglês do Canadá-América, meu idioma incompleto. Jean-Luc estava se exaltando, falando de experiências realizadas por um grupo holandês que pratica happenings por toda a Amsterdã e publica um tablóide revolucionário, os Provos. Eles espalham prendas por toda a cidade e ainda criam pontuações para determinados atos que podem ser vistos como desobediência, mas para quem os pratica, estão cheio de vida, resistência e arte. Não quis entrar muito no mérito da questão e deixei o assunto me dar uma brecha para que pudesse emendar alguma história que passasse a comandar a situação. Consegui. Estava narrando sobre o dia em que visitei a Cidade do México, o mesmo em que a Frida Kahlo tinha partido. Foi muito louco, todo mundo triste, um sentimento muito misterioso, parecia a guerra. Quando iria falar sobre a Casa Azul de Frida, o tal careca, se não me engano, Michel, veio pedir o fogo para acender a lareira. “Cara, tenho aqui uns fósforos. Mas por favor, devolva depois, hein!?” Joguei e ele catou a caixa de fósforo no ar, sorriu e voltou para a sala da lareira.

Dali um tempo, fiquei as sós com Godard. No meio do papo me lembrei do texto – aquele mais ou menos da última tarde, queria que ele lesse, desse uma olhada em primeira mão. Notei o bolso da calça um pouco vazio, mas me lembrei dos fósforos. Enfiei minha mão e percebi algo dobrado, puxei, mas tendo a impressão de não ser a brochura que procurava. Era na verdade, um cartão postal dobrado, enviado por Bill – Cidade do México, 1952. Lembro-me de ter retirado os papéis com o texto anotado e tê-los deixados sobre a mesa de algum lugar. Os retirei do bolso por que precisava pegar alguma outra coisa que estava lá dentro, talvez os próprios fósforos. Pedi licença e fui para a sala. Procurei os papeis e não encontrei nada. Michel me viu intrigado e quis me ajudar. Disse a ele sobre o propósito da coisa e seus olhos disseram tudo, viraram para trás e deram um giro pela órbita, seguido de um sonoro e em médio agudo, Ahhh! O filho da puta acendeu a lareira com os meus papéis! Fiquei muito irritado, puto da vida, aquele demônio intelectual – tiveram que me conter, mas logo fui transferido para a cozinha beber sozinho. Enchi a cara com força e passei o fim da festa questionando os idiotas franceses por que é preciso catalogar, classificar, expor todas as coisas? Por que, se os outros não passavam do nosso inferno? Escrevi um texto para mim e só por mim e ele nunca foi lido e nunca mais poderá ser visto ou ouvido. Eu mesmo, de tanto não gostar daquilo, hoje, dois dias depois, só me recordo de fragmentos e temas que pude ter tocado. Alguns, claro, estão por aqui também, mas acho que isso talvez já fosse óbvio. Ele tinha lá sua pureza, assim como hoje, tem intuição. A datação e o registro do homem e das coisas dele e das coisas que dele transcendem como a natureza selvagem, podem se tornar alienantes para aqueles que pensam que pensam por pensarem racionalmente. Inclusive, esse próprio homem ai, esse que pensa racionalmente apenas, em prol do progresso, do positivismo, que busca liberdade fazendo prisioneiros de guerra, que almeja igualdade se separando por muros e acha que a fraternidade está no dinheiro, esse ai, bem que poderia ser bicho em extinção, uma lástima da modernidade que tende a ser o oposto do que prega, dizer para se ver livre, prometer para descumprir, amar para ganhar. Inclusive, com cara e voz de santo dentro da igreja ou do laboratório científico. Tentar escrever o que o homem é, é deixar de ser homem. Conquanto esse homem persistir, ele nunca vai ter confiança para acreditar em si mesmo.

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