Kerouac Vs Einstein

Olho para o cinzeiro ao meu lado e fico espantado. Em pouco mais de duas horas, muito do meu pobre pulmão ali exposto cabisbaixo. Estou triste, depressivo. Não sei ao certo como escapar ao “demônio da verdade” – um sentimento louco que dá quando a gente não sabe ao certo por que é necessário continuar vivo. Senti isso várias vezes na “vida”. Em cada cilada quis que tudo se interrompesse. Mas acreditem, foi uma namorada que fez tudo isso ir para o ralo, uma poesia sem graça essa de querer morrer ainda jovem!

Essa mulher me ensinou que existir por mais exaustivo que fosse, era como um dom, uma aposta do divino em cada um de nós. “Deus é tudo isso aí! Ele é um ir e voltar, um pulsar constante, em movimento eterno. Você é e não é, eu sou e não sou e é simples assim mesmo, as pessoas que se confundem inventando um monte de religiões. Tudo é a mesma coisa. Vai chegar o dia em que o cientista irá dizer que o mundo físico é aleatório e depende do observador”.

O único capaz de me acolher em todo esse tempo em que fui banido de Columbia – tenho uma noção dos fatos, mas acho que fui usado por uma força ancestral, impossível de ser provada, se chamava Albert Einstein. É claro que o sujeito ocupava a cátreda careta de Princeton, mas foi um dos poucos que rompeu o silêncio quando o meu tema circulou nos jornais. “Revelação do Futebol se rebela e é expulso de Columbia”.

Acho que ele viu a minha cara em algum lugar e gravou a fisionomia – o que não deve ser difícil para um cara que usa 10% do cérebro. Estava tomando meu xerez de culpado, pensando seriamente em colocar uma pedra no pescoço e pular de alguma ponte de Nova York – na hora me lembrei de Noites Brancas do pai Dostoievski, pobre Sônia! Era ridículo e ao mesmo tempo necessário. Hoje acho que meu pai morreu de câncer por um pouco de desilusão comigo, culpa católica que vou levar para o túmulo e em minhas ações inconscientes. Uma pena a gente ser tão ligado moralmente com o mundo! Mas acho que isso é necessário par fazer o ar cada vez mais natural.

– Olá meu jovem!?

– Sim, continuo com as pernas recolhidas no banco e com o rosto virado para o chão, ignorando qualquer contato com algo além de mim mesmo.

– Eu o vi nesta manhã. Nunca esqueço um rosto injustiçado. Você estava no jornal e muita gente falava mal do seu comportamento.

–  É?! Ao que devo a honra…

– É verdade que não o procurei por toda a parte, mas o acaso me fez reconhecê-lo neste banco. Vim aqui para lhe dar minha posição: eles não entendem nada!

Ri num sorriso sem graça, regenerado: eu sei… o pior é que eu sei. Pensei, mas não tive ânimo para dizê-lo.

– Ei, mas você é aquele professor, Einstein de Princeton!

– Prazer!

Arrumo meu corpo e lhe ofereço assento. A vida parece novamente fazer sentido.

– Mas o senhor ia falando…

– Meu jovem, a vida e a sua cilada são menos determinadas que qualquer crença possa afirmar. Eu pensei no seu caso hoje e nem imaginei que pudesse vir aqui e falar com você. Quando te vi, pensei, não posso perder esta oportunidade, o destino aleatoriamente obedeceu meu desejo!

– Mas é isso… – não consegui expressar qualquer palavra, mas era certamente aquilo!

– A gente passa a vida inteira procurando a verdade e nada que ela se revele pela via racional. Os homens fingem que seguem regras, eles as usam em seus próprios favores. E em muitos lugares, aquilo que é estranho, diferente, fora da norma é punido. Poucos sabem, mas eu tenho uma filha que é croata e não a vejo desde muito tempo. Fingimos que aquilo não havia ocorrido por que tudo em minha vida iria ruir. Uma pena, hoje vejo que a verdade sempre vem a tona e qualquer coisa que façamos para brecá-la é só culpa idiota para alimentarmos no futuro.

Dali um tempo, depois de eu falar um pouco sobre a verdade do oriente e ele me dizer que tudo era a mesma coisa, que a física iria chegar à filosofia e vice-versa, colocou o chapéu e deu tchau. Fiquei ali, terminei o copo e fui para o indeterminado.

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