Kerouac Vs Huxley

Era um típico cair da noite em Santa Mônica. Tinha acabado de deixar Frisco e iria encontrar Allen em uma conferência sobre literatura do pós-guerra. Naquela época a costa oeste inteira queria saber se existiria ou não uma nova geração de escritores americanos que poderia substituir a altura, caras como London, Hemingway e Wolfe. Antes de ir correndo para o hotel – os Reds Sox seriam transmitidos ao vivo pela TV, passei em um supermercado para comprar uma garrafa e algumas latas de conserva. De repente olho para o lado e dou de cara com um homem de seus 60 anos observando admirado a reação de algumas pessoas. Era um pouco surreal ver aquele coroa com seus olhos de coruja mirando e anotando mentalmente suas considerações a partir das ações os que ali estavam consumindo. Ele pareceu não dar conta de que, além de observador, estava sendo observado. Achei aquilo bastante engraçado e sai pela porta rindo. Ainda tive no pensamento que aquele sujeito parecia chapado, como se tivesse tomado alguma coisa e estava se divertindo naquele zoológico.
Tempos mais tarde, vi o mesmo cara dando entrevista para um jornal de Nova York. Eu sabia que alguma coisa nele tinha me chamado a atenção, muito mais que aquela paranóia de ficar vigiando as pessoas e chegando a conclusões alucinadas na própria mente. Ele era nada mais, nada menos que Aldous Huxley, um dos melhores romancistas que eu já havia lido na vida e que tinha uma visão muito interessante sobre as coisas. No texto, o repórter dizia sobre as pesquisas que o autor realizou para escrever um dos seus últimos textos – As portas da percepção, que não era um romance, mas sim, um ensaio sobre os efeitos da mescalina e a profundidade que a mente poderia alcançar sob o efeito desse tipo de droga. Um dos métodos utilizados por Huxley para poder concluir sua obra foi ele próprio experimentar mescal e sair a campo. Um dos seus objetos preferidos era o consumo e o consumidor. O escritor tomava a droga e sob o efeito, ia a locais públicos observar a reação das pessoas diante as compras. Quando li isso dei uma baita risada sozinho e deduzi que indiretamente participei de sua pesquisa, mas digamos, de um outro ponto de vista.

Naquela mesma época fiz uma viagem para o México e acabei tendo contato – outra vez – com o peyote, a substância sagrada dos Astecas que levam o indivíduo a conhecer os seus deuses interiores. Não fui o mais drogado da minha geração, até porque sempre gostei muito mais de fumar uma bagana do que tomar picos. O pessoal era muito obsessivo com o pó marrom e isso me espantava um pouco, me deixava com certo receio de cair naquele clima de limbo e desespero que era típico da casa de adictos. Nunca me dei muito bem com as viagens de heroína, cheguei a passar mal nas vezes que tentei encarar os efeitos da papoula. No deserto, sob o efeito da mescal, vivi as alucinações mais transtornantes que já havia tido. Em um encontro místico, pude conhecer o meu próprio avatar e reconheci algumas partes da minha subjetividade que ficavam escondidas debaixo dos meus maiores recalques.

De súbito, comecei a pensar sobre como seria a vida na França na época da Revolução. Uma raiva incontida tomou conta do meu espírito e eu sentia meu ódio caminhar com minhas pernas para Versailles. Segurava uma tocha nas mãos e tinha verdadeiro ímpeto para botar aquele château pelos ares. Mas alguma coisa me disse que depois disso acabei me arrependendo de alguns atos e passei a ficar um tanto decepcionado com aquilo que eu mesmo havia ajudado a destruir/construir. Talvez meu espírito tivesse imaginado outros rumos para aquela revolução e isso abriu uma profunda ferida na minha alma. O ocaso de qualquer período histórico depende das ações de uma maioria levada por uma cúpula, que em suma é muito mais individualista e gananciosa.

Por sorte, um coiote atravessou o deserto e dispersou minha imaginação para uma outra época, ainda na França, ainda em um período extremamente conturbado. Meus olhos sentiam o odor podre de Paris na manhã seguinte da Noite de São Bartolomeu. Entretanto, alguma coisa não estava certa naquela sensação. Eu mesmo me via como um cadáver ao lado de milhares outros estirados pelos cantos da cidade. Eu estava imobilizado dentro da carne que se decompunha e o desespero vivido na noite anterior vagava sobre a minha mente. A cena do meu próprio assassinato invadia as minhas lembranças trazendo rancor. Fora apunhalado pelas costas por alguém que provavelmente nem conhecia. Alguém que apenas queria se livrar da minha imagem e fez isso como faria a um porco. De repente, milhares de vultos começaram a se levantar daqueles corpos e o zumbido da dor parecia continuar mesmo depois da morte. Com certa dificuldade, também me levantei da carne e com o passo trôpego tentei me afastar de tudo aquilo. Assim que tomei direção a um feixe de luz que transpunha a realidade, fui novamente transportado para o deserto.

Nunca mais tive qualquer vontade de poder experienciar aquelas sensações horríveis de fracasso. Quando vi Huxley naquele supermercado e depois li o artigo e o livro, algo despertou dentro de mim, uma sensação de que o passado e o presente coabitam e que realmente, a divisão temporal não passa de uma ilusão que ocupa a alma enquanto tentamos nos descobrir.

Em Admirável Mundo Novo, o México para o escritor britânico também tinha seu sentido de descoberta. Foi por ali que Bernard conseguiu visualizar a própria existência e entender que a sociedade em que vivia era apenas mais uma das milhares de possibilidades que poderiam acontecer. Uma civilização inteira pautada na organização e no controle foi sutilmente abalada pela penetração viral de um selvagem que trouxe em si a pureza e o lirismo de humanidade que faltava a toda aquela formalidade de Londres do sexto século da Era Fordista. O admirável no mundo novo não são as coisas, mas sim, as pessoas e seu espírito. Por isso, qualquer um que tentasse enxergar pelos próprios olhos poderia entender o quanto a liberdade do pensamento era a grande resposta. A ação corporal seria apenas o desenho dado pela alma aos desejos. Por isso um pensamento em névoas poderia ser o deserto necessário para as piores barbáries possíveis. Assim foi no velho continente do passado, assim o é no novo mundo do presente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s