Kerouac Vs Rosa

rosa

            Bill ficou muito vidrado no que viu abaixo do Equador. Ele me mandou cartas e mais cartas da América do Sul. Umas bem sacanas, com cenas que só ele poderia ter sido personagem. De certa forma, eu tenho uma consideração a fazer a essa parte do globo: algo ali me excita de verdade, é um paraíso amaldiçoado, um lugar de perdição ingênua, mas letal. Uma coisa que me fascina no sul é o sincretismo de tudo e qualquer coisa. Parece o ponto de união de todas as almas já fabricadas nesse mundo. Há também, certa devoção que também sempre tive ao Cristo – isso me conforta. Há uma tristeza no rosto da índia que imagina seu Jesus cabloco, mas de olho azul. Bill conta que nós, os norte-americanos, somos parâmetro para qualquer coisa. Nos engoliram junto com os aspectos da sociedade espanhola decadente das capitais – as rádios e os magazines misturam a aristocracia merengue e o consumo novayorquino. E uma parte deles nos adora como ídolos. Os mais abastados tentam ser como a gente – ou como imaginam o nosso modo de vida. É a finalidade de suas existências riquinhas. Nem imaginam que a sua roupa foi forjada por uma história de lutas injustas regadas a sangue nativo e muita ostentação e estupros. A maioria dos caras da alta nunca souberam o que seus tios, avós e outros ancestrais fizeram ao povo que ali florescera bem antes dos navios aportarem. Queriam sugar da terra e dela fizeram sua morada, explorando o povo original, obrigando-o a cultivar sua igreja e suas leis – geralmente desfavoráveis aos proprietários por natureza.

Todavia nem é tanto desta parte da América Latina que “algo mais” toca o meu espírito. Tenho medo, pavor, horror, pânico de pensar estar solto em meio às terras quentes do Brasil. Por sorte, houve uma alma que resolveu acalmar meus tremores. E fez mais: pensar nele me fez recordar um episódio que havia gerado pensamentos impactantes na minha vida logo após O Livro. Vi que o beat, realmente, é uma poesia da vida e que vai, devagar, mais vai fazendo metáfora na cara de muita gente que não consegue se desvencilhar de uma honradez forjada. Como dar títulos ou dizer verdades a um povo em que a unidade é como um todo e não hierarquia? A nobreza é uma falácia acreditada. O que atesta alguém rico ou alguém pobre? Capaz ou incapaz… de quê?! Há sim um mundo lá fora, desconhecido, mas de um caminho que se repete na viga estranha em que se equilibra. São nas terras e pelas veredas que se encontra o mistério, ele não se esconde, quer ser achado. Porém, o que o homem que conta a história quer é que se acredite que só ele pode ou tem autorização para dizer do livro da vida o que as pessoas devem, atentas, ouvir.

Era verão e ainda não havia se passado nem um ano desde a fatídica resenha no NYT. O mundo havia girado no fundo de várias garrafas e eu, a cada semana, me transformava cada vez mais em um traste. Acho que o erro sempre foi não ter percebido que eu já estava velho para aquilo tudo. Pois bem, eu só queria que o tempo passasse de forma suave e intensa, um paradoxo perfeito para quando a fama abocanha o seu rabo. E você sabe que o brilho que sai, cega também as pessoas. Naquelas últimas três noites eu, All e os rapazes ficamos nos dividindo entre vários pulgueiros de Nova York. Em uma das manhãs, alguém apareceu com uma Kodak e congelou na história o momento em que os beatniks foram pegos a luz do dia. Mal sabiam eles que o sol era tão artificial quanto a lua naquele momento. Exatamente naquela hora, qualquer coisa era contínua com a noite, nada além disso. A luz seria uma alegoria para a verdade obscura.

Mal sabia distinguir qual era o direito ou o esquerdo. Mesmo assim, fui amparado por anjos até o portão de casa. Deitei na mola como se entrasse num saco de feno confortável. As nuvens foram transformando o ambiente e logo ocupava a divisão onírica da vida.

Obviamente, meu estado mental ainda andava intoxicado e as cenas do sonho não foram outras quantas as que narravam o martírio do próprio Cristo. Minha culpa por deteriorar a carcaça agraciada por Deus ao meu espírito, me trouxe um resultado dos mais angustiantes dentro do sensorial mundo de Morpheus. Queria logo que a epopéia desconsertada dos meus erros marchassem pela cabeça. Porém, ao invés dos tanques do abutre, meu mundo de sofrimentos foi acossado por um moleque atirando pedras em minha vidraça. Acordei gritando “filho da puta”, mas antes de terminar minha oração, Deus puniu meu ser enviando uma dor de cabeça aguda e profunda. Fui ver o que era com o gosto do sangue na boca, queria canibalizar quem me tornara tão pesado naquela noite. “Senhor Jack, Jack…” VAI EMBORA FILHO DUMA … ai ai Aihhhh!!! “Esta acontecendo alguma coisa ai, senhor Jack”, insistia o pentelho, agora preocupado com a minha saúde. “Senhor Jack quer que eu chame uma ambulância?”. Não, não, disse. O que você quer? ”

Estou indo embora para minha casa amanhã. Sou de muito longe e li o seu livro nestas férias. Não poderia voltar para São Paulo sem ver a sua cara”. Então, controlei a respiração e disse: você bateu na minha janela, está gritando na porta da minha casa só para ver a porra dos meus olhos azuis. Você é uma bicha, sai do meu quintal! “Calma, pelo menos autografa o meu livro… quer dizer, o seu?” Ok, vou descer, disse já com a mão pressionando um dos lados da têmpora na tentativa inútil de diminuir a dor.

E ai acabou que ficamos conversando e ainda eram 9 da noite. Meus ânimos pareciam ter voltado e agora eu já queria levar o rapaz para uma noite especial na capital do mundo. Ele me disse que seu nome era Guilherme e havia vindo à NY visitar um parente. No dia seguinte, voltaria para o Brasil, onde cursa algo parecido com a High School. Guilherme estava bastante apreensivo, falava o tempo todo em uma partida de futebol dos ingleses. “Jack, amanhã é a final do campeonato mundial. O Brasil tem um time formado por gente de toda cor, muitos são misturadíssimos. E o pior é que as principais estrelas, as que estão despontando nos jogos são negras. E sabe aonde está sendo a Copa do Mundo, como é chamada?” Não, respondi desinteressado. “Na Suécia, Jack!” Ele tinha razão, como que pretos poderiam de novo superar os branquelões. Isso já tinha sido motivo para uma guerra!!!! Hitler não agüentou quando o negro fudido Jesse Owens venceu com folga os alvos da raça perfeita ariana e o Führer descontou a humilhação em Berlim, balançando seu pintinho para outros países.

Guilherme me convidou para ouvir a partida pelo rádio em uma estação da colônia italiana em Newark. Partimos para a cidade perdida e chegamos a uma espécie de rádio-pizzaria. Já eram 11 da manhã quando a bola rolou em Estocolmo. A narração era em um inglês britânico dos mais afrescurados, mas que incrivelmente dava muita emoção quando entendíamos que algo estava acontecendo. O estádio parecia vir a baixo e o locutor elevava o tom. No final das contas, Guilherme e os italianos comemoraram mais vezes do que xingaram o aparelho. O Brasil dos pretos ganhou o campeonato mundial e vi pessoas de outras partes do mundo deitarem lágrimas sobre o solo da América.

Depois daquele momento isolado, entendi que o beat da África havia sido explorado pela ignorância do homem. Entretanto, algo de mágico existe não só nesse povo, mas em suas relações com os novos mundos em que são enviados, buscados. Os Estados Unidos e o Brasil representam no macro a possibilidade da união em torno da alma, do beat. Há aqui e lá uma força que poetiza a existência. Não há cores nem hierarquias, somos um conjunto de almas e livres para a criatividade estimulante. Um cobiça e aprende com o outro e deste, surge mais vários em uma corrente infinita de mescla e divisão.  Por causa desta experiência, dois anos mais tarde, não fiquei assustado quando o senhor de óculos me perguntou se eu conhecia alguma coisa de “soccer”, como os americanos chamavam o esporte. Apesar de não ter ligado o nome ao esporte, pelo sotaque carregado, logo vi de que esporte se tratava. Falei em francês (acho que aceitaria mais a minha fala assim): Como não, até ouvi o título mundial do Brasil em 58.

Caí nas graças do sujeito. Alguém muito importante e interessante, diga-se de passagem. Tinha sido diplomata e agora, como eu, jazia na anti-sala de um programa de TV francês. Nos apresentamos, ele me reconheceu, me parabenizando por Vagabundos e disse gostar bastante do ritmo de minha escrita. Fiquei curioso para saber como era a sua misteriosa e cativante terra, o Brasil – país que tinha certo receio, sem saber ao certo porquê. Explicou-me que poucos recursos chegam ao país e que por isso, como o povo era bastante criativo, algumas alternativas foram sendo construídas. Por exemplo, algumas cidades são em torno de florestas e por isso, um meio de transporte usual é o cipó. Dizia ele: “o pessoal sai do morro e vai para o centro descendo por cipós firmes, recolocados pela prefeitura em caso de qualquer defeito”. Contou que por lá, existia uma bebida mágica que transformava gente em um felino selvagem chamado “Onça”.

É interessante como os nossos caminhos se cruzaram. O meu, a longa estrada empoeirada em sua margem; ele, um poeta, um embaixador de um cultura desconhecida e aberta, profeta reconhecido pela diplomacia e proposições completamente caóticas e Zen. O tal senhor Rosa escreveu sobre uma terceira margem, um terceiro lugar na travessia do rio. Na hora vi o velho jangadeiro de Sidarta, o fluxo em trânsito pelo meio, sem apoio nas margens, mas consistente em sua paciência e leveza sobre o rio. Um delírio sobre a própria angústia de viver a deriva entre os macacos falantes.

Cada um entrou no estúdio a sua hora. O momento de Rosa foi após o meu, mas como fui interpelado por algumas leitoras histéricas e beats da França, pudemos nos encontrar novamente no saguão da emissora. Ele me desejou o melhor possível em minha jornada literária e me convidou para passar alguns dias em sua aldeia. “Tem uma linda praia”, disse apaixonado, sem antes diminuir a voz e falar das sereias que chegam à margem dos riachos e fazem o melhor oral da selva. OK, disse entusiasmado, irei quando as coisas se estabilizarem, quem sabe quando eu mudar de vida e não precisar mais do mar alucinante da América, eu topo passar por lá. “Hmm, América? Você, meu jovem, ainda não conheceu o que é a América, ela não se limita a essa sociedade que te criou mimado e crente de ser o portador da verdade”. Nos despedimos, concordei com seu raciocínio, todavia refleti como seria  me transformar num gato selvagem, num tigre americano.

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