Kerouac Vs Parker

Charlie-Parker-Indies

A primeira vez em que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna.

Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra, pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovasse suas forças, que suas células fossem restabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso em termos de palavras mentais quase audíveis, um outro tipo de ideia invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que permaneça desse jeito aqui! Quando será que se libertaria dessa maldita doença se minha reza funcionar? Se Ele estiver nos ouvino, Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo”?

Desconectei meu espírito dessa verdade e insistia em concentrar energias positivas. O homem sentado, vendo meus trejeitos esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer ir embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear, você quer que ela vá para você se livrar dessa culpa!” Bird não se surpreendeu com meu texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”.

Alguém já havia me contado uma lenda do submundo em que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em seu nome. Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.

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