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		<title>Kerouac vs Madalena</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Jan 2013 17:40:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 56]]></category>

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		<description><![CDATA[Não havia mais muitos motivos para permanecer. Pelo menos naquele momento. Embriagava-me de forma dolorosa com a dura rotina da vida urbana. Pensava em corpos sem qualquer sinal de alma pirando pelas ruas em suas guias de sistema. Sempre haveria<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=586&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Não havia mais muitos motivos para permanecer. Pelo menos naquele momento. Embriagava-me de forma dolorosa com a dura rotina da vida urbana. Pensava em corpos sem qualquer sinal de alma pirando pelas ruas em suas guias de sistema. Sempre haveria uma esquina e nela, sempre haveria alguém indeciso entre atravessar, ir para a esquerda, ir para a direita ou simplesmente dar meia-volta e retornar para seu caminho inicial.</p>
<p style="text-align:justify;">Passei boa parte da minha vida insatisfeito com o presente. Não tenho pretensão de me achar exclusivo nesse assunto, mas foi sempre o incômodo que me tirou das coisas simples. Idealizava-as, falava sobre, escrevia a respeito do leve, da humildade, da poesia do simples e do mínimo. E hoje, me encontro sentado na janela do meu quarto de hotel vagabundo, olhando uma São Francisco colorida e limitada pelo brilho do seu próprio desapego. Abaixo passam putas e putos felizes na expectativa de uma grande noite de fudeção e vazio. Na cara, vem estampado o sorriso de superioridade em ter a grana de homens escrotos e alguns honestos, mas que ainda assim precisam de trepar, porquê esta é uma questão  primata e vai além das propostas de disciplina social.</p>
<p style="text-align:justify;">- Hey, J. Por que você não desce &#8211; ouvi de súbito uma voz feminina se esforçando para ser ouvida por alguém que está no alto. Olhei e vi Pen, uma amiga dos bares da Sunset. Faz um boquete por 3 dólares. Nunca comprei seu agrado, mas ela sempre faz seu marketing. Vem cá garotão, tenho umas amigas pra te apresentar. Fiz um sinal para que me esperasse e fui me arrumar.</p>
<p style="text-align:justify;">Era uma noite profunda de final de primavera. O calor já havia se apresentado e as pessoas estavam com sorrisos nos lábios e com o corpo levemente umedecido.  Pen me apresentou à Suzy, Marta e Gonzo, esse um garoto de programa que frequentava o porto de segunda a segunda. Fomos para um boteco onde elas faziam ponto às sextas. Gonzo se despediu e foi em direção ao sul.</p>
<p style="text-align:justify;">- J. cansei dessa porra de vida, disse Pen aparentemente alta. Não que não goste de trepar. Adooooro. Só, porra, assim nunca vou conseguir ser o que sempre sonhei. Já tentei algumas vezes, mas o pico e a pica de ouro sempre me buscam e me levam para as ruas e eu acabo estragando tudo.</p>
<p style="text-align:justify;"> - O que você sempre quis? Perguntei a ela, mas quem ouviu fui eu. &#8220;O que eu sempre quis&#8221;&#8230; silêncio, boa parte, parar de sofrer ou ao menos entender o sofrimento. Escrever, escrever e beber, meter, ouvir jazz, falar, conversar, conhecer pessoas. Portanto, nunca quis nada, absolutamente, nada de concreto.</p>
<p style="text-align:justify;"> - Porra, cara. Sempre quis ser musicista de orquestra  &#8211; disse me surpreendendo e mostrando as falhas em sua arcada em um sorriso com olhos ao infinito, provavelmente,  imaginava perdida, ouvindo a si mesma ou quem  sabe, a própria orquestra ou quem sabe ainda seu sonho seja muito mais de estar próximo a isso do que necessariamente, em execução. Via-se no teatro, olhando a si mesma enfileirada em um naipe de cordas, olhar concentrado, cabelos arrumados, talvez os pais ou o marido ou o marido e os filhos na platéia; alguém importante nos camarotes e um genial maestro regendo a si e aos outros.</p>
<p style="text-align:justify;">- Sabe, joguei ao léu uma questão, o que nos falta, se já temos pernas e falamos?</p>
<p style="text-align:justify;">- Cara, a única coisa que sei fazer com elas, é abri-las para pessoas muito asquerosas e com minha boca, você sabe muito bem o que sei fazer.  Queria muito bem acordar amanhã com uma vontade alucinante em meu espírito, me dando energia para sair da cama, arrumar um café e ir ao conservatório estadual. Levar minhas partituras, arranjar um violino e fazer um teste. E depois do teste, encontraria o cara mais bonito da rua, seduziria e meteria de graça a noite inteira em um ritual pagão de embelezamento da alma. Assim, tenho certeza que meus segredos viajariam até os professores e eles me dariam a oportunidade.</p>
<p style="text-align:justify;"> - Por que não seduz um dos professores, não é mais fácil?</p>
<p style="text-align:justify;"> - Seu puto! Aos sacerdotes oferecemos nosso banquete, não nosso corpo. Agora, me dá licença que tenho muito o que fazer. E ela saiu e me deixou sozinho com as outras duas que conversavam no mesmo ritmo em que olhavam languidamente para qualquer um que entrasse no recinto.</p>
<p style="text-align:justify;"> Brincava com um copo vazio de uísque, esperando minha decisão ou a de alguém em ir buscar mais uma dose. Por um lado queria muito ser cavalheiro e me oferecer para ir ao balcão. Entretanto, o que eu queria era a questão que estava mais me incomodando. Estava cansado de sempre pensar no que seria melhor para as pessoas naquela hora. Simplesmente isso também era uma boa mentira. Sempre pensava mesmo era em mim no que eu realmente queria e o que poderia fazer para que as coisas que as pessoas queriam também fossem atendidas. Uma espécie de busca por equilíbrio entre a unidade, eu, e a pluralidade, os outros, o mundo, as coisas do mundo e das pessoas. Mas ai, parava e sacava que eu também não tinha qualquer direito e nem noção sobre o que era certo para mim e para as pessoas. A impressão que me batia era uma vontade, uma ideia, uma criação, não uma razão, algo que eu podia desejar, ver e seguir e falar que havia todo um caminho construído até ali. Assim, me perdia entre o que queria e o que podia realmente fazer. Me sinto em um cano.</p>
<p style="text-align:justify;"> De repente, Suzy se vira para mim e diz:</p>
<p style="text-align:justify;"> - Sabe, rapaz, já não fazem mas homens como antigamente. Nós duas aqui e você nem levantou seu rabo sujo para pegar alguma coisa pra gente. A Marta já está levantando para fazer o que você deveria ter feito há um tempão. E, posso te falar uma coisa &#8211; aham &#8211; você desperdiça seu espírito filosofando demais sobre uma coisa muito simples que é a vida. Você um dia acorda e esta num lugar em que precisa se alimentar e de outras pessoas que você acredita saberem das coisas. Ai você cresce e percebe que ninguém tem certeza de nada e ficam uns caras falando sobre o que é certo e o que é muito errado. E com o tempo você descobre que esses caras cheio de estrelas e brilho e sermões são tão infantis como qualquer um. Quando você esta no auge e vai meter com um político, general, industrial você saca que esses caras não passam de crianças. Não sabem de porra nenhuma da vida e colocam para as pessoas somente o próprio interesse ou o interesse de quem o pressiona. Porque você sabe, né?! A vida é feita de pressões, é isso que faz o desequilíbrio continuar reinando. A busca por equilíbrio é uma explosão de dor provocada pelas pressões da vida. Enquanto buscam o equilíbrio, os governos buscam o desequilíbrio, pois querem ter mais do que qualquer um. E isso é no micro e no macro, é o governo e o governante; o padre e o fiel. E acontece com a gente,  seja do desequilíbrio do corpo na hora que seus peitinho crescem e sua xoxota começa a ficar inquieta, seja quando a fome e o frio batem e você não está tão dentro do sistema e não tem dinheiro para pagar e só o seu corpo e seu talento para o desapego são alguma coisa quente e de carne que dá prazer para um macho que pensa que pensa em alguma coisa e que as pessoas escutam as suas palavras, mas na verdade tem um pau tão pequeno e tão sem fogo que parece mesmo que as coisas estão trocadas. O que ele  tem de bicho, usa na sociedade, o que tem de humano, usa na trepada.</p>
<p style="text-align:justify;">Marta chega com os copos. Agradecemos, sorrimos uns para os outros e desejamos saúde. Levanto-me da mesa, me despeço com apreço, saiu do bar, acendo um cigarro e volto para o hotel. Durmo profundamente e no outro dia, recordo do sonho louco que havia tido: Em um mundo de energias mais sutis, uma espécie de máquina se revela como uma forma especular do meu desejo. Como se ela fosse um duplo e me ajudasse a entender e a resolver minhas questões. Nada muito simples ou fácil, mas um recurso que parecia me ajudar a perceber onde poderia encontrar o básico: amor e trabalho. Não sei como, entrei dentro dessa máquina e peguei o caminho que me apontava. Por um lado desejava muito que fosse o daquela que iria fazer com que a dor da existência fosse mais suave, aquela pela qual a poesia em minha alma seria atraída e por ela seria regida e para ela criada.</p>
<p style="text-align:justify;">E no caminhar dessa estrada de chão, sem poeira, avisto uma nuvem com cores, bocas e faces vindo em minha direção. É o desejo de outrem, penso. E sou envolvido pela nuvem e nela uma multidão, gritos de histeria, olhares profundos, bucetas pulando, paus correndo, cascatas de birita, algazarra, loucura, êxtase e demônios, dor, morte, ferimentos e prazer edificante. Algo muito forte e confortável me deixava bastante a vontade dentro daquela forma pensamento, daquele útero de imagens. Entretanto, se o mundo lá fora é sensível, o meu é um desafio. No meu dentro mais dentro, não quero ficar solto acorrentado. É o meu lago, a minha vaidade que precisa se alimentar, não minha montanha, meu sossego brando. Saio da nuvem através de uma força que surge do meu peito. E no que deixo-a, acordo e penso:  meu caminho sou eu quem puxa. Em uma noite qualquer, uma cena e duas putas podem lhe dar mais do que 5 anos de estudos ou masturbação. É preciso desapego J.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-56/'>Capítulo 56</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=586&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac vs O meio</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Dec 2012 23:22:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 55]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho certa dificuldade com a mecânica da escrita à máquina. Gosto mais de estar livre com o carbono de um lápis, não só pelo meu tempo, mas também pelos meus garranchos e desenhos que saem de palavras e letras que<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=582&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Tenho certa dificuldade com a mecânica da escrita à máquina. Gosto mais de estar livre com o carbono de um lápis, não só pelo meu tempo, mas também pelos meus garranchos e desenhos que saem de palavras e letras que se formam a partir de desenhos. Mas se escolhi escrever a vida, não tenho como fugir dessa interrupção de papéis. Trocando o usado, não velho, o que ainda virá a ser, mesmo que já tenha sido, pelo novo, em branco, aquilo que ainda não foi e logo se tornará, também, algo usado com alguma coisa que virá a ser.</p>
<p style="text-align:justify;">Meus olhos sangram de remorso e raiva e paixão e desespero por não entender porque será tão difícil conseguir apenas o básico do comportamento humano mais social de todos os tempos. Tenho certas peculiaridades no amor e algumas crenças me levam a pensar em imensas contradições. Sou capaz de amar loucamente uma mulher durante duas semanas sem sair da cama e em seguida, numa noite qualquer, no meio da terceira semana, abandonar a cama e voltar bêbado no dia seguinte, sem café ou pão pra quem me espera. Nada dura muito em minhas mãos. Parece que quando um apito sopra dizendo &#8220;envolvimento&#8221;, meus dedos começam a queimar e os olhos da pessoa se envergam e o corpo se torna um sacrilégio o beijo, a porta do inferno e a voz, o próprio demônio falando.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao mesmo tempo, existem aquelas que me fazem cair de quatro, aquelas em que toda a vibração das células mais internas do meu coração parecem atraídas, como se fosse o único sentido possível para que parem sua rebeldia. Entrego meus pensamentos a cultuar o rosto, a boca, o corpo, os olhos, a tudo e qualquer coisa que possa representá-la em sua distância, em sua impossibilidade, porque sempre que me deixo quedar em algum tipo de encanto, acabo me ferrando, acabo lotando a pessoa de tanta possibilidade de amor e de carinho que aquilo que mais quero acaba se assustando com o pote tão lotado que carrego comigo. Pareço um sonho, mas acho que também pareço um pesadelo na certa. Até porque muitas dessas me conhecem do que se conta, daquilo que fui capaz de realizar de proeza machista e insensível.</p>
<p style="text-align:justify;">Vou de um extremo ao outro. Quando tenho o que desejo, o objeto daquilo me sufoca e eu esquento como o sol e queimo aquela possibilidade, explodo com o carinho do próximo. Se não consigo aquilo que possuo, se passo noites a confabular planos de conquista e me passo como um adolescente romântico, me estatelo, esfrio, congelo. Ainda não consegui encontrar no caminho um poço que me diga o que é preciso fazer para preferir o meio termo, como falar para meu ser que não é preciso ficar entre o céu e a terra, apenas. E sim, entre o céu e a terra.</p>
<p style="text-align:justify;">Desejo aquela que o não-desejo deixar.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-55/'>Capítulo 55</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=582&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs Ananda</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Dec 2012 14:01:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 54]]></category>

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		<description><![CDATA[Claro, sempre me interessei pelos tortos. Não só porque gosto do cheiro de espontaneidade, muito menos pela selvageria dos argumentos fantásticos. Mas porque sendo atípicos, suas ações sempre são respeitadas como a de um. O homem são não deve sair<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=575&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Claro, sempre me interessei pelos tortos. Não só porque gosto do cheiro de espontaneidade, muito menos pela selvageria dos argumentos fantásticos. Mas porque sendo atípicos, suas ações sempre são respeitadas como a de um. O homem são não deve sair desse caminho, pois para o povo, um furo praticado pelo que é padrão, estremece as bases da conduta guiada pelo fora -&#8221;fora de si&#8221;, a maioria das pessoas é conduzida na vida pelas ideias que existem, que falam pra ela que exalam feito perfume de cinema. Esquecem de produzir a própria vida, ideia, criação e muitas vezes julga e vê naqueles que riscam com sangue e paixão a trilha do independente, como indignos da própria convivência e se tanto, com escárnio, punição, rancor.</p>
<p style="text-align:justify;">Pois bem, agora me lembrei de Ananda. Primo e discípulo fiel de Buda. Repreendido e usado como exemplo de alma incompleta. Serviu ao iluminado, mas foi incapaz de ser aceito pelos outros sábios. Ananda não havia sido visto como um arhat &#8211; sábio iluminado. Se entre os cristão tivemos Judas, entre os hindus, Ananda. Não cabe peso para um ou para outro. Porém eu posso escrever o meu nome aqui todo para dizer que EU penso isso &#8211; o que ainda vou escrever &#8211; e que por ser um pensador livre, posso escrever, mesmo que boa parte da minha família, comunidade inteira da cidade e o que for me queiram jogar na fogueira: Judas e Jesus são personagens de uma mesma história de humanidade e divindade. Judas cria no nazareno como o messias, era um místico em sua linhagem. Não pensava que daria errado. Havia ali também uma vontade de Jesus em querer se tornar mais conhecido, um planejamento. Pensavam também no homem político. Acho que o messias não contava com a vitória de Barrabás. Pensou mesmo que sairia daquela ileso, o povo não deixaria de escolher a praxe &#8211; sobreviver aquele que não era ladrão &#8211; havia sempre um que escapava. Barrabás era o maior filho da puta do Império Romano e olha que estamos falando de Jerusalém, ele estaria na confraria dos mais bárbaros. Judas cumpriu o teatrinho, mas acabaram as coisas indo além do que esperavam. Nem Jesus tirou a espada flamejante e destronou Roma nem aquilo que pensavam aconteceu. O povo sacrificou o criativo, escolheu a peste e a desgraça ao invés da trabalhosa análise do espírito. Judas não deu conta, foi obrigado a se sacrificar e isso ficou impresso na história da comunidade cristã. Ele é um erro e ao mesmo tempo, o meio mais extremo para revirar a situação. Provavelmente, outros queriam ferrar mais Jesus que o próprio Iscariotes, mas se passaram de bonzinhos, justificaram a resolução da coisa em cima de um homem só, de um indivíduo apenas. E além dele, o povo também se ferrou, tornou fiéis em sua culpa. O povo que escolheu o ladrão, não queria um messias, mas somos sempre julgados pelo lema de que Jesus morreu para nos salvar. O nazareno foi morto pelo não entendimento de que ele estava ali a favor das coisas, não uma perturbação.  Talvez parecesse individual e livre demais para o preferirem. Temiam a independência de Roma mais que sofriam com as supressões. Estavam felizes comandados pelo de fora.</p>
<p style="text-align:justify;">Ananda não traiu Buda, mas não conseguiu superar a destreza do corpo e do desejo. Ao menos foi assim que a coisa foi sendo contada e escrita. Ele sempre era o exemplo de alguma máxima, era considerado um impuro. Ao mesmo tempo, incomodou muito aos monges por sempre estar com Sakyamuni, por ser sempre um dos preferidos. Das cinco honrarias oferecidas, ele foi o mais citado. Em três. Mas em nenhuma das que congraçam a sabedoria e o valor de um santo sagrado. Ficou com outras outorgas após a morte de seu primo e mestre. Entretanto, Ananda daqueles fora o que mais &#8220;viveu&#8221; e ainda assim, para espanto dos arhat, alcançou o nirvana ainda em vida. Ele não saiu da sua condição de humilde homem, com as flechas da danação sendo lançadas, indo bem além do bem e do mal, fracassando na tentativa de ser puro em uma piscina já ferrada. Se não fossem por suas ações, muitas coisas não teriam sido compreendidas, vividas, ensinadas. Ele tinha uma farta memória e com isso serviu a si como banquete para a empáfia do orgulho que também frequenta qualquer reino da sabedoria e da paz.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu me sinto uma espécie de Judas-Ananda. De alguma forma admito que posso percorrer caminhos tortuosos para conseguir realizar alguns desejos. E esses, estão de acordo com o céu e com a terra, ao menos, o céu e a terra que habitam o meu espírito impulsionando que sempre busque estar queimando, queimando, tentando viver para a vida não passar correndo como se fosse qualquer coisa e cuidando para dizer isso para as pessoas. Irmãos mais ou menos acordados, tanto quanto eu, que em uma inteligência coletiva prega e vive uma nova visão. É importante refletir sobre a conduta pessoal, saber que todas as ações respeitam a reação, mas que essa não possui uma resposta especular. Ela vem de várias maneiras e acontece tudo ao mesmo tempo junto com a própria resposta social e biológica e você tenta se reunir para entender o que realmente pode valer a pena. Principalmente, no presente. Ananda, apesar de tudo, apesar da autoflagelação pela conduta, conseguiu entender e praticou o que seu mestre indicou para a vida: ele sabia o que queria encontrar e o que encontraria dentro do pote. Desejou e guiou seu destino pelo somatório de tudo aquilo que havia vivido, suas outras vidas, antepassados, líderes, pessoas do contato e do povo. Entendia que poderia muito bem encontrar uma peçonha no pote, mas cria cegamente, que mesmo que saísse dali mordido, sua certeza das verdades celestiais o protegeria de qualquer destino infinito, que mesmo na dor, ainda assim, teria condições de encontrar o equilíbrio. Seu acúmulo de virtudes não permitiria que voltasse do começo, talvez um pouco anterior ao último momento, mas nunca para atrás. O que se perde são as incertezas e o medo. A serpente seria, por fim, sua confessora.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-54/'>Capítulo 54</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=575&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs Linda</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jul 2012 06:19:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 53]]></category>

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		<description><![CDATA[Que porra é &#8220;hoje&#8221;?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava,<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=563&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Que porra é &#8220;hoje&#8221;?! Sei que habito um lugar gravado com a inscrição exata de um tempo, mas tão pouco sei onde me encontro nesse exato momento. Decidi pelas estradas porque percebi que a vida parada, onde (não) me encontrava, come minhas entranhas com vigor e sem perdão. Hoje, não desejo mais &#8220;isso&#8221;, porém quero aquilo que hoje, não será possível. Essa é minha luta, esse é meu desafio: entender que no hoje, qualquer palavra é vã, qualquer argumento não se coloca simplesmente porque passa e passa mesmo, passa diante dos meus olhos e dos olhos dos outros e tudo se torna poeira. As estradas estão cheias e eu estou vazio.</p>
<p>Fui homem o suficiente para negar presentes que qualquer pinto não negaria. Fiz isso pois tenho alguma esperança de que o amanhã possa ser sóbrio e constante. Todavia, querer correr o mundo agarrado a qualquer forma de pretensão é querer também, em alguma instância, negar que o barco em que circulamos esta completamente à deriva. Não consigo mais admitir viver com uma faca rasgando minhas costas. Quero poder dizer que sou livre e que possa ser isso, mesmo dentro dos limites da minha fronteira. O que falo e o que penso são sementes para que o que vir seja mais reconfortante e liberto do que o que já tive ou pretendi. Que a faca saia pelo seu próprio gume.</p>
<p>Nestes últimos tempos, antes do presente, conheci garotas que mexeram com o meu coração, outras que arrasaram meu estômago e alguma ou outra que me fez pirar. Desfiz completamente qualquer possibilidade de ilusão como se amarra um sapato &#8211; a pressão da vida e das neuroses explodiu os grilhões. O nó é dado, mas sabemos que uma hora ou outra ele pode se desfazer pelo aperto dos passos.  E assim, saí por ai desamarrado, desarmado de qualquer barreira que se cause constrangimento. E, Linda, estava ali a me esperar. Ela e seus olhos de fantasia, ela e seu sorriso de paraíso, ela e sua sabedoria.</p>
<p>É muito difícil encontrar pessoas que se assemelham ao que você não tem com facilidade. Gente que preencha suas lacunas e faça seus olhos brilhar de admiração e o sorriso sair sem qualquer esforço repetitivo. A maioria do que se vê são pessoas lotadas de lugares comuns e viçosas de baixa estima. A essas que não não só roubam o coração, mas dão efeito a alma, ofereço com carinho minha mão. E não é simples pular no mundo com uma palma que se ofereça em completa harmonia com o que tem abaixo do braço e acima do peito. É raro. Não me cabe dizer exatamente o que sou, mas sei bem que a ligação que há entre o que cabe a mim e o outro, através das mãos, não é um simples aperto, é muito mais do que isso, é uma conexão que quer se dar pelo mais puro, pelo mais simples sentido de nossa espécie: a comunhão. Não exatamente algo definitivo nem sequer duradouro, posto que numa amálgama crescente, feito uma trepada que não é boa só pra um ou pra outro, é um crescendo coletivo!</p>
<p>Ontem, percebi que Linda não tem os olhos mais simples nem sua mão a é mais singela. Todavia, reconheci que há algo em sua forma, em seu espírito que sempre irei buscar: uma felicidade que nasce como um raio de sol e que se encontra presente, preenchendo o vazio que qualquer outra coisa desse mundo não consegue se aproximar, mas que no fim da tarde, se coloca em seu ocaso. Mesmo que essa felicidade tenha futuro certo, sei bem que no outro dia, ela há de retornar e estarei ali, presente, firme e espero, seguro para cumprir o caminho que me compete. Não necessariamente em relação à Linda, mas a mim depois de sua mão, seu sorriso, seu gosto. Tenho forças para crer que mesmo em deriva, mesmo em condições de nunca haver mão que leve realmente minha alma, nem que dê a sua, ainda assim, é por isso que irei lutar fortemente em minha alma para que encontre. Esse é um dos sentidos de minha busca &#8211; correr em direção ao impossível, ir sabendo que não haverá. Mas posso ir fundo na minha alma com os olhos atentos aos que falam, pensam, ouvem e são, no mínimo, loucos e incomodados, pois sei que são destes que meu olhar é feito. Procuro por uma estrada que não precisa ser infinita, nem que passe pelos meus pés, mas que me dê um sorriso no futuro, que me aponte um norte ao qual eu possa ir tesudo e confiante para lhe dar sentido, para que eu possa me colocar por sobre e saiba como ninguém navegar o seu asfalto. Linda, tenho o seu mapa, ainda não deixei de ver onde ele acaba e espero poder ir fundo até o final, mesmo que esse seja apenas o começo.</p>
<p>Com amor,</p>
<p>K.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-53/'>Capítulo 53</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=563&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs Mr. President</title>
		<link>http://jackerouac.com/2012/06/25/kerouac-vs-mr-presidente/</link>
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		<pubDate>Mon, 25 Jun 2012 20:33:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 52]]></category>

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		<description><![CDATA[Acho muito estranho quando a gente passa do limite de solitário vagabundo para alvo de um brilho frouxo para os jornais e a TV e, necessariamente, para aqueles que seguem cegamente esses tipos de gurus. Sinto-me sendo sugado cotidianamente por<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=558&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Acho muito estranho quando a gente passa do limite de solitário vagabundo para alvo de um brilho frouxo para os jornais e a TV e, necessariamente, para aqueles que seguem cegamente esses tipos de gurus. Sinto-me sendo sugado cotidianamente por câmeras e lápis e blocos rabiscados. Minha alma sai de mim e vai direto para a confusão que esses caras fazem a respeito do que escrevi ou falei. É difícil ter em uma resposta, ainda mais uma que seja exatamente como aquela que se encaixa naquilo que esses ursos que controlam tipos e botões querem que você diga. Porra, se já têm resposta, por que tantas perguntas tolas?</p>
<p>Era sábado e eu estava bêbado. Não que isso seja algo especial dos sábados, mas é que nesse dia, mais da metade das mentes e dos corpos da América dirigem seu espírito para uma caixa que solta um luz azul e fala um monte de maneiras de se dar bem na vida e de como é simples querer ser feliz nesse mundo. Eu prefiro escapar disso bebendo por eles. Houve um tempo em que rezava, mas acho que perdi a fé no meu poder de remover montanhas dos olhos dos transeuntes nessa vida. Apesar disso, estava naquele tal sábado, justamente, em um estúdio de TV por conta da porra de um livro ter arrastado milhões de putos novos para as estradas, para as drogas e para o sexo livre, completo e sem amor exclusivo. Há pelo menos 4 anos venho tentando dizer a todo mundo que o <em>beat</em> é algo especial e que está fora do que se encontra normalmente nesse país. É difícil ser americano legítimo e entender que algo pode ser de várias formas. Enfim&#8230; as pessoas gostam de se alimentar de ilusões, é um tipo de premissa humana para inflar de forma falsa o próprio ego, subir sua vaidade pelas paredes. E a mídia se não é um forma complexa de fábrica de mundos fantasiosos, pelo menos parece uma lojinha de doces do tio Sam vendendo felicidades efêmeras, que não custam nada, mas vão te fazer voltar no dia seguinte.</p>
<p>Estava em um camarim com luzes e assistentes gostosas, bebendo e fumando e falando um monte de asneira, quando, inesperadamente, vi a porra de um sorriso que conheço há muito tempo. Quer dizer, nem tanto assim, mas de tanto passar na TV me pareceu que já tinha visto aquilo antes mesmo do tempo. E não era a boca aberta mundana de qualquer pessoa que simplesmente expõe os dentes. Era o sorriso mais importante desse país, o mais imponente conjunto de dentes da América. E ele entrou, assim mesmo, meio sem graça, parecia estar fugindo de si, do personagem que ele mesmo era e queriam que interpretasse. De súbito, me viu, apagou o sorriso, fechou a porta por dentro e me disse: &#8220;Oi, é, sou eu mesmo, tudo bem?&#8221; Ele havia notado o meu espanto, não consegui botar o copo na boca de novo. &#8220;É&#8230; oi, John, quer dizer&#8230; Jack, prazer&#8221;. &#8220;Rá, eu sei quem é você. Andei lendo a seu respeito&#8221; &#8211; comecei a ficar paranoico, &#8220;É?&#8221;. &#8220;Sim, somos conterrâneos, também nasci e cresci em Massachusetts&#8221;. &#8220;Sei, não voto mais por lá&#8221;. &#8220;Não me importo, cara. Sei que não parece normal, mas será que posso tomar um gole da sua garrafa?&#8221; &#8220;Fique a vontade senhor presidente&#8221;, disse rindo de mim mesmo pela situação. &#8220;Sabe, retomou, gosto muito de como relata suas experiências, principalmente, quando pensa nos costumes americanos. Sou católico como você, pra mim é difícil olhar para a vida mesma forma. Não me sinto um espírito raro, com uma dádiva enviada por sei lá quem e para fazer sei lá o que por cima daqueles que não são agraciados.&#8221; &#8220;Bom, senhor, não sei se penso assim, exatamente.&#8221; &#8220;Por favor, pare de me chamar assim, aqui somos dois bebedores de whisky, apenas isso. Estou falando isso porque acho que muita gente metida a besta nesse país acha que somos um povo escolhido ou que só porque o cara tá podre de rico ele é enviado de Deus. Mas as pessoas estão tão loucas que, mesmo que isso seja verdade, elas só querem saber de si mesmas ou de nós.&#8221; &#8220;Nós!?&#8221;. &#8220;É, de mim e de você. Mandei fazer uma pesquisa e disseram que eu e você somos os sujeitos mais amados e os mais odiados nesse país. Paradoxal, não?!&#8221;</p>
<p>Provavelmente, foi por conta dessa pesquisa que o puto do diretor de programação nos colocou lado a lado. Demorei um tempo também para sacar que ele estava era fugindo de si naquele momento. Achei mesmo que era um conversa do tipo &#8220;você está fudendo esse país com o seu livro, os pais estão me enviando cartas e pedindo para te condenar pelos atos de seus filhos&#8221;. Mas qual é realmente a minha responsabilidade pelo aquilo que carregam depois de me encontrarem? Nunca escrevi nada para me tornar um guru, pelo contrário, escrevi porque não sei fazer qualquer outra coisa a não ser botar para fora as minhas memórias loucas e sei muito bem que não é lá muito sadio querer viver isso sempre &#8211; ter uma vida espontânea e sem limites. A cada dia que passa, a cada ano e reportagem que me entregam, fico cada vez mais infeliz de ter feito da minha vida, uma estrada sem fim sem um cruzamento concreto. Não quero que me idolatrem, que beijem minha mão ou que ofereçam seus corpos, não sou nada além de um lamento. Sou como todos, de osso e merda, nada mais. Esse sujeito também. Apesar de colocarem o personagem presidente como o mais importante da América, ele e eu sabemos muito bem que isso não passa de bobagem, de mera formalidade, pois os tubarões agem na moita, mordiscam, mordiscam e nunca são vistos. Gostaria mesmo de ter sido um desses que não precisam ficar contando a mesma história sempre.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-52/'>Capítulo 52</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=558&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac vs a loucura</title>
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		<pubDate>Tue, 22 May 2012 05:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 51]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=529&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Hoje, deixo o sanatório. Não aceitaram meu pedido de loucura. Hahaha! Nos últimos dois anos aconteceram tantas mini-histórias que até um velho marujo mentiroso ficaria envergonhado de contar. Tudo começou ainda em Lowell. Lá passa um rio que levou minha alma junto. Sempre pensei em sair do quintal de uma das casas beira-rio e de lá ir para o mundo. Quando era menor, fui o mentor de uma das nossas tentativas de escapar.  Já estávamos cruzando o condado quando o pai do Harry apareceu com as nossos irmãos menores e gente da cidade. Sempre soube que queria viajar pelo mundo sobre o mar. Porquê a vida é o mar!</p>
<p style="text-align:justify;">Mas os tempos eram de guerra e eu não estava a fim para contribuir com qualquer tipo de matança. A vida já era difícil demais com as coisas precárias, o mundo não precisa de mais tantas outras ruins. Por isso, dei um jeito de ser dispensado da marinha por comportamento paranóico e agressivo. Fui preso e tirado do barco, por assim dizer. Mandaram uma carta para meus pais e a mim para esse internato para jovens. De alguma forma sabiam que eu tinha forçado a barra e queriam mesmo era me dar uma espécie de lição, uma lei marcial nas entrelinhas.</p>
<p style="text-align:justify;">Os quarenta e nove dias que passei aqui me motivaram a olhar para a vida e para a vida das pessoas de uma outra forma. Lidar com aqueles que são encostados requer três atitudes: os parentes esquecem ou desistem, os médicos controlam e os donos do jogo desejam eles fora, mas não tem como, a América ainda é um país cristão. Na verdade, por mais dramático que seja, muitos dos que estão ali são garotos e garotas de &#8220;posição&#8221;. Gente que sempre teve tudo, que frequentou boas mesas e salas de aula, que até viajou ao exterior, nem que seja ao Canadá.</p>
<p style="text-align:justify;">É muito engraçado porquê aqui você acaba cruzando com tipos que simplesmente não cresceram. São crianças traumatizadas em corpos de adultos. E, claro, a sexualidade é uma das peças essenciais de vários dos contextos. Um dos mais interessantes, um hipster de 30 anos, provavelmente acabado pelo álcool, bolas e benzedrina, anda peladão exibindo os ovos para todo mundo. Catarina, a noviça, levanta a saia em todos os piqueniques e mija rindo enquanto os enfermeiros a catam pelo braço. A masturbação é uma constante. Os lençóis apodrecem de tanta excitação. Sei que não é algo legal nem de ler, mas agora estou em uma fase que quero arranhar o olho do leitor pelo estômago. Cansei de pensar num mundo e universo só para o meu umbigo, ele também deve sentir o peso do que eu vi, do que eu pude interpretar dele e de seus bonecos de fantoche. Não dá mais para ignorar que há algo de errado nesse lugar e nas pessoas daqui e eu sei disso e sei colocar para fora. Como é possível trancafiar tanta gente e verdade dentro de condições tão aterrorizantes, dando a eles o tratamento que não dão aos próprios cães? E muitas vezes, a incompreensão, a ma fé, a injustiça é com o próprio sangue, com o vizinho, o companheiro de jornada&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">O pior é que tenho certeza que quando passar desse portão , do trem às ruas da grande cidade vou continuar tendo a mesma sensação, de que estamos presos em uma espécie de asilo e não é Deus que nos protege, porquê Ele não suporta tanta ignorância.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-51/'>Capítulo 51</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=529&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac vs a honra</title>
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		<pubDate>Thu, 17 May 2012 22:06:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 50]]></category>

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		<description><![CDATA[Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=524&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Seus olhos nunca são os mesmos. A cada dia, a cada despertar, um novo mundo se projeta biologicamente dentro de você e aquilo que enxerga, por mais que seu cérebro de TV, viciado, ache que é o mesmo, que o sorriso e a decepção tem os mesmos tons, não têm. Há uma história de que a angústia viaja amarrada nas costas do viajante. Não adianta sair de um lugar se o que lhe ferra tá dentro e te acompanha até a porta do inferno. Ou seja, por um lado temos um despertar completamente novo todos os dias e, por outro, temos as coisas dentro de nós permanecendo, independente da coordenada em que seu corpo estiver habitando. Assim, somos novos corpos em almas velhas, vagabundas, repetitivas, geralmente, estagnadas.</p>
<p style="text-align:justify;">E assim, com a ilusão de que a mudança de lugar iria facilitar as dores, saí do ventre que tanto conhecia e parti para a maior cidade do mundo. Mesmo morando no interior, meu espírito sempre procurou entender das coisas como se não houvesse hierarquia. Não conseguia acreditar que qualquer coisa funcionasse melhor fora da gente do que dentro. Absorvi em torno de mim, todas as possibilidades de acontecimento desse mundo e achei que a partir disso, qualquer coisa que fosse possível, poderia estar em mim, independente de meus olhos, ouvidos, nariz ou boca estar perto ou não daquilo. Por um lado, é uma forma de aceitar que o mundo é muito mais vasto que os seus sentidos e a área que pode ocupar ou visualizar. Mas também, é um pouco de orgulho em não reconhecer a imensa pequenez. Que porra de vida é essa que me joga para o alto, me faz acreditar que sou um iluminado e ao mesmo tempo, me tampa na parede, como um navio em mar bravio, me coloca em um lugar tão rebaixado que qualquer condenado sentiria orgulho de sua condição diante do quanto me humilho. Sou viciado em me colocar por baixo de qualquer ser que tenha um vazio entre as pernas e que demonstre nenhum tipo de consideração por mim. A única hierarquia que respeito é aquela que fode com meu coração e acaba com qualquer projeto sério que esteja levando no momento, na vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa herança maldita deve ter algum tipo de arqueologia em minha alma. Será possível olhar para atrás e achar algum culpado nessa história louca de excitação, submissão, destino e chão! Será minha mãe, a morte imatura do meu irmão, os porres de papai, a cristandade chorosa da cruz do mundo? Porquê sempre vou ao mais raso do raso, rastejo sobre minha carne e dilacero qualquer consideração por minha honra. Sou livre, mas aqui dentro, aqui onde eu acho que domino, sou fisicamente dependente da tristeza. Sinto-me livre, mas sei bem o quanto fico trancafiado em sentimentos de desconforto. Enquanto a maioria se mata pela vergonha, eu me alimento da minha própria desgraça. E essa sequência, não apenas permaneceu quando me desloquei no espaço, como se potencializou na grande cidade. No interior, pelo menos, em algumas ocasiões só eu e meus piolhos sabiam realmente que era prazeroso ser ofendido por uma vadia. Aqui, onde as regras e as leis não são conforme a tradição cristã, tudo mundo fica sabendo em seguida, é como se colocassem o fora que você tomou para passar no Times Square. Logo, os olhares são de pena e você tem certeza que sua honra desceu pelo ralo do esgoto e que ninguém nunca mais vai querer olhar para não correr o risco de pegar essa coisa de ser colocado na sarjeta da sociedade. Além disso, é missão de qualquer xoxota cosmopolita fazer questão de apontar para a sua cara e dizer: ual, você é o máximo, pena que não tem nome, pena que é um caipira.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, enfim&#8230; levantei com novos olhos nessa manhã. A angústia, olhei no espelho, e a vi tatuada no meu peito. Peguei uma faca e escarifiquei sobre a imagem, &#8220;impossível&#8221;&#8230; que ela saia dali, que eu desista de senti-la, que eu acorde como antes, que eu não seja eu mesmo. E com a lâmina sangrando, parti para as ruas, a primeira vadia que encontrar vou fazer questão de mostrar quanto tão rústico é o meu pau.</p>
<p style="text-align:justify;">
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-50/'>Capítulo 50</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=524&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs o Casamento</title>
		<link>http://jackerouac.com/2012/05/03/kerouac-vs-o-casamento/</link>
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		<pubDate>Thu, 03 May 2012 01:10:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 49]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo,<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=517&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo, preferiria entrever-me com um outro alguém, mesmo que isso levasse em conta a obrigação e o acúmulo de carma. Por um tempo, justamente por estar necessitado de um manche na vida, pensei que a liberdade era o casamento. Amar e ser amado, não se preocupar muito com o que acontece lá fora e ter um cobertor de orelha todas as noites frias do inverno. Dividir momentos bons e ruins, chegar a conclusões juntos, poder ver se desmanchar uma primeira persona e se fundir com os pensamentos e os desesperos e os sonhos de outra pessoa. E assim foi durante mais de 2000 luas. Naquele tempo, o que eu pensava de mim e sobre a vida era muito frágil e cheio de fantasias &#8211; não que essas duas características não me acompanhem agora. Tinha segredos que incomodavam minha mente e um medo sideral das coisas saírem do controle a qualquer minuto. Hoje, as malícias da cabeça já não me corrompem tanto e o medo do chão cair foi jogado para a hora em que ele abir, realmente. Sempre penso na sorte e espero que ela me poupe disso nessa vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Saí da cadeia e fui direto para o altar. A única forma de me salvar do quadrilátero do capeta foi me casando. E para cumprir tal obrigação, me mudei novamente para o interior e tive que conviver com uma estranha mesmo que aquilo tivesse que durar para sempre. Pensei muito nas mulheres e nos noivos que passaram a história da humanidade conhecendo-se no dia em que decidiam por eles que, a partir daquele momento, um teria que servir ao outro. Continuei preso.</p>
<p style="text-align:justify;">Minha esposa era essencial e minha bestialidade foi bem domada. Entretanto, a fúria dos anos vindouros arrancou-me a alma pacata e o sangue enebriante da rua me convocou sem dó nem piedade.  Estava muito novo para me dizer completo. Para um, a vida é uma sequência montada, para mim, ela acontece a cada frame. Por isso, embarquei em um zíper e fui flanar na grande cidade novamente. Sei que meu problema não é o casamento exatamente, mas eu mesmo e a pessoa com quem vou haver. Não adianta, em algumas almas o incômodo diante a inverdade não deixa respirar direito. Sou motivado pelo equilíbrio e quando não há sombra dele, a cada segundo que passa, meu espírito se esperneia e tenta sair fora da rota.</p>
<p style="text-align:justify;">Prometi a mim mesmo que a próxima, Aquela ou outra, seria muito bem tratada. Receberia um carinho nunca imantado da minha parte e atenção para todas as coisas. Conheci uma flor e para ela resolvi dedicar minha jardinagem completa. Passei meses regando, colocando adubos de serventia e admiração, mas em coração desacostumado não entra vento. Quando vi, não tinha mais qualquer certeza de que tudo aquilo valeria a pena o tempo todo. Perdi meu passo e meu olhar. Minha vista brilhava cada vez mais distante e aquele velho incômodo bateu a porta da alma novamente. Em minha ingênua vontade, me ofereci como noivo e marido, mas fui negado, não apenas na voz, mas principalmente, em intenções iniciais. Talvez não tenha dado tempo algum para que ela pudesse se ver comigo. Entretanto, minha embriaguez de vida, tornou os dias um suplício. De um lado queria permanecer por todo o benefício que só aquela flor poderia me dar nessa existência, mas por um outro, sabia eu que talvez não tivesse mais a mesma mão para dela cuidar, com aquele devido carinho que as rainhas devem ser idolatradas. Não soube explicar motivos, até hoje, não consigo dizer exatamente,  porém, mais uma vez, aumentei meu carma. E sabendo da verdade, quis apostar que não haveria por quem me apaixonar nos próximos 10 anos, não existiria qualquer porção de beleza e inquietude que me tiraria do perigo de querer, mais um vez, encontrar a liberdade me eclodindo à alma de outra mulher.</p>
<p style="text-align:justify;">Era uma época muito propícia à manutenção dos pés livres. Nova York conduzia sua cultura através do beebop alucinado e das novas linguagens artísticas. Ainda não havia conseguido encontrar editora para meu livro, mas ainda assim, minha esperança estava depositada em uma geração batizada pelo espírito do mundo renovado em sangue. Havíamos saído da segunda guerra mundial com muitas cicatrizes e o ambiente do mundo parecia necessitar de poesia e amor para se encontrar novamente. E até as garotas se divertiam como nunca. Raramente tínhamos noites com poucas possibilidades, parecia que estavam alucinadas para deixar a barra da mamãe e se divertir nos braços de um malandro, ainda mais se esse fosse romântico e canalha ao mesmo tempo. Nessa época, conheci muitos endereços novos na cidade, bairros e bares que nenhuma vida de casado me daria. E de repente, tudo parecia cinza novamente. Foi a primeira vez que percebi, realmente, que a faca não estava na vida, mas dentro de mim. Ela dilacerava cotidianamente minha razão e impedia a harmonia seja estando ou não estando. Dormi pensando nessa máxima durante sete dias e quando acordei, resolvi partir para o oeste novamente. Antes de ir, entretanto, passei a enviar cartas para uma tal Ana, mulher da minha idade, independente e que residia em Nova York mesmo. Artista e curadora de exposições incríveis, via-me diante um monstro e por isso, não conseguia me segurar na sua frente, não gostaria que me visse como um menininho babando sua divindade. Preferi encantar seu espírito aos poucos com aquilo que mais sei fazer: escrever.</p>
<p style="text-align:justify;">A cada destino da viagem, uma carta de amor. Dizia o quanto a admirava, o quanto gostaria de compartilhar a vida e a morte com alguém tão loucamente apaixonada pelo mundo e pelo faber. Sabia que a alma que me colaria teria que ter em si algo muito do fogo. Elemento essencial para a criação de mundos próprios e coletivos. Pensava que uma companheira na estrada teria como ideal para mim, a soma, o cálculo exato entre estar apaixonado e ser lúcido, entre ser amado e estar incomodado, convocado para o cliché dos bardos: fazer amar todos os dias. Sempre odiei mulheres que me deixavam passar, que por medo ou indiferença, simplesmente me deixavam ir ou me colocavam em um lugar especial, como uma torre impossível de ser alcançada. E ela não me deixava. Quando chegava em uma próxima cidade, quando demorava um pouco mais na estrada, lá estava uma carta dela em minha caixa postal itinerante. E suas mensagens diziam do quanto me amava e do quanto sentia meu caminhar pela América como um caminho nobre e libertador. Via minha vida como a de um poeta, um artista que pinta um quadro a cada olhar, palavra, sonho descrito. Quando lia, minhas pernas se esforçavam para não querer sair dali e voltar imediatamente para seus braços. Todavia, meu objetivo era ficar só, esperar o mundo acontecer de verdade e novamente decidir se seguiria o velho caminho do homem romântico ou me entregaria ao caminho do homem romântico velho, desbotado e descrente pela vida, preso em paixões platônicas e dores de existir.</p>
<p style="text-align:justify;">Em meados de julho, com o verão arrebentando em LA, descubro sem querer que ela estaria na cidade com uma mostra de artistas da costa leste. O incômodo bateu forte, pois ela sabia que eu estava a caminho da Califórnia e porque não me avisou, porque não fez questão de me falar, pois essas coisas são marcadas com semanas, meses de antecedência e na noite anterior mesmo, nos falamos pelo telefone? Por um momento pensei que talvez quisesse uma prova do meu amor e devoção. Quem sabe, não gostaria que eu descobrisse sozinho seu destino e provaria que estaria interessado, indo ao seu encontro. Além do que, internamente gostaria que ela sentisse que essa seria uma ocasião para que um calafrio subisse ao seu corpo, sem supor a certo que eu apareceria ou não na galeria.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia da estréia, tomei um longo banho, usei o perfume que ela havia referido em carta, comprei flores e escrevi um poema. Desci do ônibus bem perto do lugar e vi que ainda estava cedo demais para entrar. Um homem loucamente apaixonado tem sempre uma possibilidade muito franca de ser ansioso e acabar entrando de sola antes do que se deveria. Não queria parecer óbvio. Escondi as flores e guardei o poema no bolso. Esperei meia hora em um bar, o tempo suficiente para rever um sujeito que tinha tido comigo no meio do deserto há alguns anos, pedindo emprego. Nos reconhecemos e começamos a conversar sobre mulheres. Sua visão era para lá de cáustica e tudo o que me disse não parou de embrulhar meu estômago:</p>
<p style="text-align:justify;">- Rapaz, você acredita que essa puta tá aqui por sua causa? Deve estar dando para algum ricaço, na casa dele e com a mulher dele dormindo no quarto do lado.</p>
<p style="text-align:justify;">- Você é muito pessimista, cara. A mulher está doida comigo, me envia cartas por toda a América me pedindo para viver com ela.</p>
<p style="text-align:justify;">- Imbecil, ela o quer de longe, não percebe? Elas preferem um marido do que um poeta louco. A nós, elas querem fuder, pois sabem que nossos pintos e línguas são os melhores, mas para dividir o lar, dividir as contas e as crianças, ahhh, elas não nos querem&#8230;,</p>
<p style="text-align:justify;">- Quem disse crianças?</p>
<p style="text-align:justify;">- Vai me dizer que não entende das fêmeas? Enquanto estão solteiras, fingem que são como homens, quando casam, revelam-se famintas para procriar, continuam sendo como homens.</p>
<p style="text-align:justify;">Acabei a birita, limpei a boca e com o álcool cutucando o coração, parti decidido para a vitória. Passei pelo arbusto, peguei o buquê e entrei na galeria. Procurei, procurei, procurei. Por um minuto tive certeza de que estava errado, que não era ela a curadora. Isso me aliviou e toda a paranoia do desprezo foi vencida. Fiquei apertado e fui dar uma mijada. O banheiro estava ocupado. Realmente, ainda estava muito cedo e pouca gente tinha chegado à recepção. Com as flores nas mãos assisti a ela sair do banheiro masculino, sozinha. Olhou-me mas pareceu não me reconhecer, não tive coragem de falar quem era &#8211; tínhamos nos visto apenas uma vez, muito rápido, uma foda incrível apaixonante. Na ocasião, em uma boate, logo depois do rompante, ela teve que ir embora, deixou-me apenas a sua caixa-postal. Entrei no banheiro um, dois segundos depois. Lá dentro, um cara colocava a blusa para dentro das calças e se olhava no espelho com alguns borrados de batom. Como não se contivesse, disse-me:</p>
<p style="text-align:justify;">- Cara, que mulher louca, acabamos de dar uma metida sem noção e ela me disse para lhe escrever uma carta, deixou até sua caixa-postal escrita de batom no espelho. Que louca, que louca&#8230; e assim, puxou a braguilha e fechou o zíper e me pediu um papel para anotar o número. Dei meu poema&#8230;</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-49/'>Capítulo 49</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=517&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs U.S. ARMY</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Apr 2012 21:38:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 48]]></category>
		<category><![CDATA[US Army]]></category>

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		<description><![CDATA[Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=511&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Mais uma vez me encontro inerte. Queria muito poder trazer das vísceras uma história, visão ou qualquer coisa que pudesse cuspir meu espírito. Ando muito atento, produzindo pensamentos e falando muito. Porém, o grande Babuíno não me visita a não ser que seja em metalinguagem, somente nesta hora, quando estou, justamente, reclamando a mim mesmo a falta de inspiração para juntar letras e depois, espalhar palavras.</p>
<p style="text-align:justify;">Acho que isso acontece desde quando eu comecei a encarar essa coisa de escrever de forma impessoal. Antigamente me arrastava por esse país tagarelando que era um escritor. Mas agora, já não sei mais, acho que é uma espécie de maldição cigana. De tanto falar que seria, esse demônio apareceu me obrigando a ser assim, a ser desse jeito que esperam de mim. Tenho caído muito na bebida e as ideias não estão sendo tão legais assim. Entretanto, vira e mexe um papa-letras (agente filho da puta) me pressiona a ser o velho beatnik. Mas eu mudei, porra! Não aguento mais esse pessoal que sempre riu das minhas cretinices e me cultua como um semi-deus. Se fosse no Camboja, teria uma imagem do Jack para adorarem. Enfim, coisas da vida!</p>
<p style="text-align:justify;">E por falar no sudeste asiático, onde uma horda afina a pontaria e as doenças venéreas pululam nos pintos brancos e jovens da América, lembro-me de um veterano da guerra da Coréia, bêbado e entregue ao mundo. Estava  em algum lugar da Virgínia, indo em direção à Nova York. Parei para mijar e refrescar a garganta num posto e esse sujeito estava encostado no balcão reclamando sobre a vida com a garçonete e ao mesmo tempo, tentando seduzi-la com um discurso bem babaca. &#8220;Então, Betty, eu não aguento mais a política desse cara. Queria acabar com tudo aqui, ir para o oeste, levar sua bucetinha quente comigo&#8221;. Não acreditei muito quando ouvi aquilo. Achei que a Betty ia ficar chateada, mas nada. Abriu um sorriso bem safado e disse, &#8220;ohhh capitão, os pintos da Virgínia me atraem mais do que o deserto. E prefiro ter vários voando do que um só&#8221;. Na verdade, quem ficou puto foi o tal capitão. Na mesma hora, levantou o peito e os olhos, deu uma checada para ver se tinha alguém ouvindo. Me viu e viu que eu tinha visto e escutado. Olhou com ódio, primeiro pra mim, depois pra ela.</p>
<p style="text-align:justify;">- Olha, o pior da América são esses idiotas, metidos a alguma coisa que sempre acham que sabem mais que todo mundo. Ei você, seu vagabundo, o que você faz da vida?</p>
<p style="text-align:justify;">- Bebo cerveja! Respondi sem dar muita bola.</p>
<p style="text-align:justify;">- Maricas&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Tomei mais um gole, pensei um pouco com os meus botões, olhei para a cintura dele&#8230; parti pra cima. Pow, um soco bem no olho do capitão. Acho que ele não esperava aquilo. Caiu como uma tábua velha e inchada. Betty se desesperou, acho que ela gostava mesmo dele. Tirou um revólver de trás do balcão e me mandou sair, sem antes me roubar 20 dólares &#8211; muito além do que me cobraria. Por sorte, um tenente reformado estava passando pelo posto na hora e me deu uma carona até Maryland. Pensei que o capitão e sua putinha iriam me matar.</p>
<p style="text-align:justify;">O surreal foi que a primeira pergunta que o motorista me fez foi a mesma que o cara do bar. Dessa vez, respondi como um bom menino &#8211; &#8220;sou escritor&#8221;. A é, disse, que bom. Adoro ler, nunca conheci ninguém que tenha publicado. Disse ao sujeito que escrevia desde pequeno e que na adolescência inventava meus próprios jornais e personagens e tudo mais e que já tinha publicado um livro há alguns anos e que estava andando pra baixo e pra cima com um rolo com a história mais louca da América. Ele me pediu para contar, ai eu disse: bom, tenente, você tá nela!</p>
<p style="text-align:justify;">Como já diria Orwell, &#8220;paz é guerra&#8221;. Escrever é apagar.</p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-48/'>Capítulo 48</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=511&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Kerouac Vs Me</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Mar 2012 14:22:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>J P de Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Capítulo 47]]></category>

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		<description><![CDATA[Há 90 anos nascia o pai dos Beats. Kerouac foi um poeta errante, preso em um mundo sombrio, porém com a genialidade daqueles que escavam e encontram um caminho geral para a verdade. (Re) Conheci Jack já meio velho, aos<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=495&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><img class="alignleft" style="border-color:black;border-style:solid;border-width:1px;margin:1px;" src="http://farm5.staticflickr.com/4070/4525113052_de52ac8926.jpg" alt="" width="241" height="300" /></p>
<p style="text-align:justify;">Há 90 anos nascia o pai dos Beats. Kerouac foi um poeta errante, preso em um mundo sombrio, porém com a genialidade daqueles que escavam e encontram um caminho geral para a verdade.<br />
(Re) Conheci Jack já meio velho, aos 25, 26. Ganhei de aniversário da <a href="http://www.facebook.com/julia.milward">Julia Milward</a> e do <a href="http://www.facebook.com/profile.php?id=100001071161263">Rômulo Veiga</a>os Diários de Kerouac (L&amp;PM) e fiquei fascinado com a escrita e os pontos de vista de um estrangeiro em qualquer terra. Identifiquei-me com seu budismo católico, sua necessidade de transição e o apelo pelo contato com o outro, com o espírito dos demais.<br />
Assim, meio que de supetão, comecei a colecionar seus livros, a falar sobre ele, suas visões, sua nova visão, a pesquisar quais artistas tinham se influenciado por suas obras e palavras&#8230; e percebi que muitos deles eu já era fã, percebi que muitas atitudes minhas eram como a daqueles caras dos anos 40 e 50. Por certo, como diria o Mazetti, dei sorte de ter pego os beatniks já mais velho, pois se sem sua influência direta já tinha entrado de sola na vida, imagina o que seria com um bíblia da errância no bolso.<br />
Por fim, em uma necessidade de continuar seu mito e a busca incensante pela liberdade de expressão e artística, consegui criar um sistema literário em que me dou o prazer de humildemente tentar escrever como Kerouac e tornei ele meu personagem, o grande cara da &#8220;nossa&#8221; saga. &#8220;Let it beatnik&#8221; é uma série de encontros entre Jack e caras do meanstream cultural-artístico dos anos 40/50/60. São pessoas que existiram, que contribuíram de alguma forma para a minha própria persona e que imagino poderiam ter conhecido a sua turma e mesmo que não, são espíritos que se juntam ao beat e sacralizam a vida através de feitos simples ou mesmo, grandiosos, mas que contribuem para que eu possa, finalmente, entender e ver um caminho, mesmo que esse seja ao lado de fantasmas e de antepassados.<br />
O beat é a cor impossível que pulsa na escuridão dessa vida!<br />
Viva Kerouac, viva o triunfo da liberdade!</p>
<p style="text-align:justify;"><a href="http://www.flickr.com/photos/33289462@N07/sets/72157623866889070/"><img class="aligncenter" src="http://farm5.staticflickr.com/4049/4525106442_1a807e1058.jpg" alt="" width="460" height="276" /></a></p>
<br />Filed under: <a href='http://jackerouac.com/category/capitulo-47/'>Capítulo 47</a>  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=jackerouac.com&#038;blog=10128905&#038;post=495&#038;subd=jackerouac&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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