Kerouac Vs o Casamento

Quando tudo deu errado e era fato que viraria comida de minhoca debaixo da terra, uma luz bem lá no finalzinho do túnel resolveu aparecer pra mim. Antes de morrer jovem e senil, entregue a uma cela úmida e tifo, preferiria entrever-me com um outro alguém, mesmo que isso levasse em conta a obrigação e o acúmulo de carma. Por um tempo, justamente por estar necessitado de um manche na vida, pensei que a liberdade era o casamento. Amar e ser amado, não se preocupar muito com o que acontece lá fora e ter um cobertor de orelha todas as noites frias do inverno. Dividir momentos bons e ruins, chegar a conclusões juntos, poder ver se desmanchar uma primeira persona e se fundir com os pensamentos e os desesperos e os sonhos de outra pessoa. E assim foi durante mais de 2000 luas. Naquele tempo, o que eu pensava de mim e sobre a vida era muito frágil e cheio de fantasias – não que essas duas características não me acompanhem agora. Tinha segredos que incomodavam minha mente e um medo sideral das coisas saírem do controle a qualquer minuto. Hoje, as malícias da cabeça já não me corrompem tanto e o medo do chão cair foi jogado para a hora em que ele abir, realmente. Sempre penso na sorte e espero que ela me poupe disso nessa vida.

Saí da cadeia e fui direto para o altar. A única forma de me salvar do quadrilátero do capeta foi me casando. E para cumprir tal obrigação, me mudei novamente para o interior e tive que conviver com uma estranha mesmo que aquilo tivesse que durar para sempre. Pensei muito nas mulheres e nos noivos que passaram a história da humanidade conhecendo-se no dia em que decidiam por eles que, a partir daquele momento, um teria que servir ao outro. Continuei preso.

Minha esposa era essencial e minha bestialidade foi bem domada. Entretanto, a fúria dos anos vindouros arrancou-me a alma pacata e o sangue enebriante da rua me convocou sem dó nem piedade.  Estava muito novo para me dizer completo. Para um, a vida é uma sequência montada, para mim, ela acontece a cada frame. Por isso, embarquei em um zíper e fui flanar na grande cidade novamente. Sei que meu problema não é o casamento exatamente, mas eu mesmo e a pessoa com quem vou haver. Não adianta, em algumas almas o incômodo diante a inverdade não deixa respirar direito. Sou motivado pelo equilíbrio e quando não há sombra dele, a cada segundo que passa, meu espírito se esperneia e tenta sair fora da rota.

Prometi a mim mesmo que a próxima, Aquela ou outra, seria muito bem tratada. Receberia um carinho nunca imantado da minha parte e atenção para todas as coisas. Conheci uma flor e para ela resolvi dedicar minha jardinagem completa. Passei meses regando, colocando adubos de serventia e admiração, mas em coração desacostumado não entra vento. Quando vi, não tinha mais qualquer certeza de que tudo aquilo valeria a pena o tempo todo. Perdi meu passo e meu olhar. Minha vista brilhava cada vez mais distante e aquele velho incômodo bateu a porta da alma novamente. Em minha ingênua vontade, me ofereci como noivo e marido, mas fui negado, não apenas na voz, mas principalmente, em intenções iniciais. Talvez não tenha dado tempo algum para que ela pudesse se ver comigo. Entretanto, minha embriaguez de vida, tornou os dias um suplício. De um lado queria permanecer por todo o benefício que só aquela flor poderia me dar nessa existência, mas por um outro, sabia eu que talvez não tivesse mais a mesma mão para dela cuidar, com aquele devido carinho que as rainhas devem ser idolatradas. Não soube explicar motivos, até hoje, não consigo dizer exatamente,  porém, mais uma vez, aumentei meu carma. E sabendo da verdade, quis apostar que não haveria por quem me apaixonar nos próximos 10 anos, não existiria qualquer porção de beleza e inquietude que me tiraria do perigo de querer, mais um vez, encontrar a liberdade me eclodindo à alma de outra mulher.

Era uma época muito propícia à manutenção dos pés livres. Nova York conduzia sua cultura através do beebop alucinado e das novas linguagens artísticas. Ainda não havia conseguido encontrar editora para meu livro, mas ainda assim, minha esperança estava depositada em uma geração batizada pelo espírito do mundo renovado em sangue. Havíamos saído da segunda guerra mundial com muitas cicatrizes e o ambiente do mundo parecia necessitar de poesia e amor para se encontrar novamente. E até as garotas se divertiam como nunca. Raramente tínhamos noites com poucas possibilidades, parecia que estavam alucinadas para deixar a barra da mamãe e se divertir nos braços de um malandro, ainda mais se esse fosse romântico e canalha ao mesmo tempo. Nessa época, conheci muitos endereços novos na cidade, bairros e bares que nenhuma vida de casado me daria. E de repente, tudo parecia cinza novamente. Foi a primeira vez que percebi, realmente, que a faca não estava na vida, mas dentro de mim. Ela dilacerava cotidianamente minha razão e impedia a harmonia seja estando ou não estando. Dormi pensando nessa máxima durante sete dias e quando acordei, resolvi partir para o oeste novamente. Antes de ir, entretanto, passei a enviar cartas para uma tal Ana, mulher da minha idade, independente e que residia em Nova York mesmo. Artista e curadora de exposições incríveis, via-me diante um monstro e por isso, não conseguia me segurar na sua frente, não gostaria que me visse como um menininho babando sua divindade. Preferi encantar seu espírito aos poucos com aquilo que mais sei fazer: escrever.

A cada destino da viagem, uma carta de amor. Dizia o quanto a admirava, o quanto gostaria de compartilhar a vida e a morte com alguém tão loucamente apaixonada pelo mundo e pelo faber. Sabia que a alma que me colaria teria que ter em si algo muito do fogo. Elemento essencial para a criação de mundos próprios e coletivos. Pensava que uma companheira na estrada teria como ideal para mim, a soma, o cálculo exato entre estar apaixonado e ser lúcido, entre ser amado e estar incomodado, convocado para o cliché dos bardos: fazer amar todos os dias. Sempre odiei mulheres que me deixavam passar, que por medo ou indiferença, simplesmente me deixavam ir ou me colocavam em um lugar especial, como uma torre impossível de ser alcançada. E ela não me deixava. Quando chegava em uma próxima cidade, quando demorava um pouco mais na estrada, lá estava uma carta dela em minha caixa postal itinerante. E suas mensagens diziam do quanto me amava e do quanto sentia meu caminhar pela América como um caminho nobre e libertador. Via minha vida como a de um poeta, um artista que pinta um quadro a cada olhar, palavra, sonho descrito. Quando lia, minhas pernas se esforçavam para não querer sair dali e voltar imediatamente para seus braços. Todavia, meu objetivo era ficar só, esperar o mundo acontecer de verdade e novamente decidir se seguiria o velho caminho do homem romântico ou me entregaria ao caminho do homem romântico velho, desbotado e descrente pela vida, preso em paixões platônicas e dores de existir.

Em meados de julho, com o verão arrebentando em LA, descubro sem querer que ela estaria na cidade com uma mostra de artistas da costa leste. O incômodo bateu forte, pois ela sabia que eu estava a caminho da Califórnia e porque não me avisou, porque não fez questão de me falar, pois essas coisas são marcadas com semanas, meses de antecedência e na noite anterior mesmo, nos falamos pelo telefone? Por um momento pensei que talvez quisesse uma prova do meu amor e devoção. Quem sabe, não gostaria que eu descobrisse sozinho seu destino e provaria que estaria interessado, indo ao seu encontro. Além do que, internamente gostaria que ela sentisse que essa seria uma ocasião para que um calafrio subisse ao seu corpo, sem supor a certo que eu apareceria ou não na galeria.

No dia da estréia, tomei um longo banho, usei o perfume que ela havia referido em carta, comprei flores e escrevi um poema. Desci do ônibus bem perto do lugar e vi que ainda estava cedo demais para entrar. Um homem loucamente apaixonado tem sempre uma possibilidade muito franca de ser ansioso e acabar entrando de sola antes do que se deveria. Não queria parecer óbvio. Escondi as flores e guardei o poema no bolso. Esperei meia hora em um bar, o tempo suficiente para rever um sujeito que tinha tido comigo no meio do deserto há alguns anos, pedindo emprego. Nos reconhecemos e começamos a conversar sobre mulheres. Sua visão era para lá de cáustica e tudo o que me disse não parou de embrulhar meu estômago:

- Rapaz, você acredita que essa puta tá aqui por sua causa? Deve estar dando para algum ricaço, na casa dele e com a mulher dele dormindo no quarto do lado.

- Você é muito pessimista, cara. A mulher está doida comigo, me envia cartas por toda a América me pedindo para viver com ela.

- Imbecil, ela o quer de longe, não percebe? Elas preferem um marido do que um poeta louco. A nós, elas querem fuder, pois sabem que nossos pintos e línguas são os melhores, mas para dividir o lar, dividir as contas e as crianças, ahhh, elas não nos querem…,

- Quem disse crianças?

- Vai me dizer que não entende das fêmeas? Enquanto estão solteiras, fingem que são como homens, quando casam, revelam-se famintas para procriar, continuam sendo como homens.

Acabei a birita, limpei a boca e com o álcool cutucando o coração, parti decidido para a vitória. Passei pelo arbusto, peguei o buquê e entrei na galeria. Procurei, procurei, procurei. Por um minuto tive certeza de que estava errado, que não era ela a curadora. Isso me aliviou e toda a paranoia do desprezo foi vencida. Fiquei apertado e fui dar uma mijada. O banheiro estava ocupado. Realmente, ainda estava muito cedo e pouca gente tinha chegado à recepção. Com as flores nas mãos assisti a ela sair do banheiro masculino, sozinha. Olhou-me mas pareceu não me reconhecer, não tive coragem de falar quem era – tínhamos nos visto apenas uma vez, muito rápido, uma foda incrível apaixonante. Na ocasião, em uma boate, logo depois do rompante, ela teve que ir embora, deixou-me apenas a sua caixa-postal. Entrei no banheiro um, dois segundos depois. Lá dentro, um cara colocava a blusa para dentro das calças e se olhava no espelho com alguns borrados de batom. Como não se contivesse, disse-me:

- Cara, que mulher louca, acabamos de dar uma metida sem noção e ela me disse para lhe escrever uma carta, deixou até sua caixa-postal escrita de batom no espelho. Que louca, que louca… e assim, puxou a braguilha e fechou o zíper e me pediu um papel para anotar o número. Dei meu poema…

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